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Diogo Schelp


Suspeita de desvio deve ser investigada, mas há risco de vendeta política

19.mai.2020 - O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC-RJ) - Gilvan de Souza/Agência O Dia/Estadão Conteúdo
19.mai.2020 - O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC-RJ) Imagem: Gilvan de Souza/Agência O Dia/Estadão Conteúdo
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

26/05/2020 12h25

O Rio de Janeiro é um dos estados com pior colocação no Ranking de Transparência em Contratações Emergenciais, divulgado pela ong anticorrupção Transparência Internacional Brasil na semana passada. O ranking avalia, no contexto do combate à pandemia de covid-19, "como os portais de 26 governos estaduais, do Distrito Federal e de 26 capitais trazem informações sobre contratações emergenciais de forma fácil e ágil". O Rio de Janeiro está na 23ª posição do ranking, melhor apenas do que Acre, São Paulo e Roraima.

Onde há cortina de fumaça, quase sempre há fogo. Na manhã desta terça-feira (26), a Polícia Federal (PF) cumpriu mandados de busca e apreensão em locais de residência e trabalho do governador Wilson Witzel e sua mulher, a advogada Helena Witzel. O Ministério Público Federal vê indícios de vínculos entre a primeira-dama e empresas que prestam serviços no combate à pandemia de covid-19 no estado. Partiu do Procurador-Geral da República (PGR), Augusto Aras, o pedido para a operação.

Espera-se que todas as suspeitas de desvios de dinheiro público sejam investigadas. Deve-se evitar o risco, no entanto, de que as investigações sirvam ao propósito de vingar disputas políticas com o governador do Rio de Janeiro, um ex-aliado e agora desafeto do presidente Jair Bolsonaro.

Um dia antes da operação que permitiu aos policiais levarem sacolas e mais sacolas de documentos dos locais usados por Witzel e sua esposa, a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) disse que havia governadores sendo investigados pela PF em operações que poderiam receber o nome de "Covidão". Bolsonaro, por sua vez, perguntado nesta terça-feira sobre a operação no Rio de Janeiro, elogiou o trabalho da PF. Isso tudo em meio a uma investigação, conduzida pela PGR e autorizada pelo Supremo Tribunal Federal, que apura se o presidente tentou interferir na PF, e em especial na PF do Rio de Janeiro, para defender interesses pessoais e de sua família.

Não vai faltar quem diga que Witzel está provando do mesmo veneno que levou líderes do PT à cadeia, recorrendo ao argumento de que as investigações no âmbito da Operação Lava Jato foram seletivas e tinham motivação política.

Mas há uma diferença crucial. A Operação Lava Jato foi iniciada durante o próprio governo do PT e a Polícia Federal e o Ministério Público tiveram autonomia para conduzi-la. Não havia interesse do governo federal para que aquelas investigações avançassem. Agora é diferente. Bolsonaro é presidente e o alvo das investigações é um desafeto político.

As suspeitas de uso indevido do dinheiro público devem ser apuradas, mas o risco de a Polícia Federal se tornar instrumento de vendeta política precisa ser afastado.

Diogo Schelp