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Diogo Schelp


Estudo mostra propensão irracional de médicos a receitar hidroxicloroquina

Bolsonaro tomando hidroxicloroquina: médicos são influenciados por comoção coletiva ao receitar remédio - Reprodução
Bolsonaro tomando hidroxicloroquina: médicos são influenciados por comoção coletiva ao receitar remédio Imagem: Reprodução
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

08/07/2020 15h16

Resumo da notícia

  • 89% dos médicos entrevistados receitariam hidroxicloroquina para pacientes com covid-19 grave
  • Índice é muito maior do que para outro tratamento sem evidência científica para doença não pandêmica
  • Comparação sugere que comoção coletiva e pressão política levam médicos a receitar medicamento sem eficácia comprovada

A propensão a prescrever hidroxicloroquina para tratamento de covid-19 aumenta conforme a gravidade do estado do paciente e indica um processo de tomada de decisão irracional por parte dos médicos em situação de pandemia. Essa é a conclusão de uma pesquisa realizada com 370 médicos de Alagoas e Goiás entre os dias 15 de abril e 3 de maio.

Em casos graves de covid-19, 89% dos profissionais que responderam ao questionário disseram que prescreveriam hidroxicloroquina, um medicamento sem eficácia comprovada contra a doença causada pelo novo coronavírus. Em casos de média gravidade, 68% prescreveriam o remédio. A proporção cai para 37% em casos leves.

Esses índices foram comparados com a propensão dos mesmos médicos a prescrever vitamina C para pacientes com sepse (infecção generalizada) — também um tratamento sem eficácia comprovada, mas sobre o qual não há a pressão e a comoção pública de uma pandemia, como ocorre com a hidroxicloroquina. Verificou-se que a propensão dos médicos em receitar vitamina C contra sepse não aumenta tanto conforme a gravidade dos casos se eleva (33% receitariam a vitamina para casos leves, 39% para médios e 43% para graves de sepse).

Os resultados sugerem que os profissionais de saúde se sentem compelidos a prescrever hidroxicloroquina, apesar de não haver evidências de sua eficácia contra covid-19, por causa da comoção coletiva causada pela pandemia e pelo uso político do medicamento.

Antes de responder ao questionário, os médicos que participaram da pesquisa leram a seguinte afirmação: "Hidroxicloroquina tem sido proposta como tratamento para covid-19, mas não há prova científica de sua eficácia até agora."

O estudo, cujo título em inglês pode ser traduzido para "Preferência de médicos em relação ao tratamento sem base científica com hidroxicloroquina para covid-19: o efeito pandêmico", foi publicado esta semana pelo Journal of Evidence-Based Healthcare, vinculado à Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, de Salvador, e contou com a participação de pesquisadores da própria instituição, da Universidade de São Paulo, da Universidade Federal de Goiás, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (RS) e do Hospital São Lucas, em Aracaju (SE).

"A preferência por hidroxicloroquina, bastante prevalente entre médicos (como mostrado em nosso trabalho), representa uma fragilidade cognitiva de nossa sociedade. É utópico querer medicina baseada em evidências sem uma sociedade baseada em evidências. No fundo, as pessoas não são contra ciência. Na verdade, a sociedade não entende o que é ciência e seu papel no processo de tomada de decisão", diz o médico Luis Claudio Correia, um dos autores da pesquisa.

Correia continua: "Nosso trabalho retrata uma irracionalidade. Mas evito julgar esses médicos. Isso expressa apenas fragilidade deles diante de uma questão em que a racionalidade se faz muito necessária."

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado, Aracaju fica no estado de Sergipe, e não de Alagoas. O texto já foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Diogo Schelp