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Diogo Schelp


Diogo Schelp

Por que a reeleição de Trump seria boa para a China

Os presidentes da China e dos EUA, Xi Jinping e Donald Trump - Thomas Peter - Pool/Getty Images
Os presidentes da China e dos EUA, Xi Jinping e Donald Trump Imagem: Thomas Peter - Pool/Getty Images
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

21/07/2020 15h26

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Mark Esper, elevou o tom contra a China. Em evento pela internet nesta terça-feira (21), ele mencionou a necessidade de seu país se preparar tanto militar quanto tecnologicamente para enfrentar a potência asiática. As tensões entre Estados Unidos e China vêm se aprofundando desde que Donald Trump assumiu a presidência americana, quase quatro anos atrás.

Trump iniciou uma guerra de tarifas de importação com Pequim e, este ano, culpou a China pela pandemia do coronavírus. "Vírus chinês" e "kung flu" (trocadilho com a palavra que significa "gripe", em inglês) foram algumas das expressões usadas por Trump para ter quem culpar pelas mais de 140.000 mortes de americanos por covid-19.

Apesar de tudo isso, do ponto de vista do regime chinês a reeleição de Trump no pleito a ser realizado em novembro deste ano seria mais benéfica do que se o vencedor for o democrata Joe Biden.

Duas linhas de raciocínio complementares apontam para essa preferência. A primeira é que as tensões entre Estados Unidos e China tendem a crescer nos próximos anos independentemente de quem ocupará a Casa Branca. A razão para isso é a inevitável ascensão econômica e geopolítica da China, que coloca em xeque a supremacia americana. A segunda diz respeito à diferença entre a maneira como Trump faz frente à China e a estratégia que Biden provavelmente adotaria diante do crescente poderio chinês.

Coloque nesse contexto a pandemia do novo coronavírus, que está acelerando mudanças na ordem global que já estavam em curso, e chega-se ao resultado de que o melhor candidato chinês à presidência dos Estados Unidos é ninguém menos que Donald Trump.

A pandemia de covid-19 gerou uma ameaça e duas oportunidades para a China.

A ameaça veio na forma das desconfianças internacionais em relação à maneira como Pequim lidou com o surto de covid-19 em seu início. O governo do presidente Xi Jinping reagiu a essa crise de imagem contra-atacando e tirando a política externa chinesa de sua tradicional posição de cautela. Os diplomatas chineses puseram-se a rebater ferozmente as acusações de negligência e de falta de transparência no início da pandemia. Os embates entre o embaixador chinês no Brasil e o deputado federal Eduardo Bolsonaro, em março passado, fazem parte dessa estratégia.

Já as oportunidades são de ordem econômica e política. A oportunidade econômica é o fato de que a China deverá ser, em 2020, a única entre as maiores economias do mundo que desfrutará de crescimento econômico, apesar do baque na produção no início do ano. Os investimentos chineses devem inundar outras economias (a ponto de, na Europa, a preocupação é que ações de empresas fragilizadas pela crise sejam compradas a preço de banana por estatais chinesas).

A oportunidade política foi o vácuo de liderança global que Trump criou ao se abster de coordenar com os tradicionais aliados dos Estados Unidos uma resposta conjunta para conter a pandemia. A China está aproveitando essa lacuna para apostar em uma estratégia de soft power, conquistando influência externa por meio de cooperações científicas para o desenvolvimento de remédios e vacinas contra a covid-19 e da distribuição de insumos médicos.

Isso nos traz de volta às duas linhas de raciocínio mencionadas acima. Se a disputa de poder entre Estados Unidos e China tende apenas a crescer, seja Biden ou Trump o ocupante da Casa Branca, qual dos dois representaria um desafio maior para os interesses da China?

Biden pode adotar um discurso mais suave contra Pequim, mas, por outro lado, tende a reconstruir as alianças transatlânticas com as potências europeias e a retomar o protagonismo americano nas instâncias multilaterais — alianças e protagonismo que foram enfraquecidos no governo Trump.

Uma política externa isolacionista como a de Trump, ainda que mais afeita à confrontação, tende a dar mais espaço para a expansão chinesa. Já uma diplomacia mais internacionalista, como se imagina que Biden colocará em prática, representaria um desafio maior para os chineses.

Trump é o candidato da China.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Diogo Schelp