PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Diogo Schelp


Diogo Schelp

A candidatura de Kanye West à presidência dos EUA é para valer?

19.jul.2020 - Kanye West discursa em comício na Carolina do Sul - REUTERS/Randall Hill
19.jul.2020 - Kanye West discursa em comício na Carolina do Sul Imagem: REUTERS/Randall Hill
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

22/07/2020 16h54

Este texto pode entrar em modo de autodestruição com o próximo tuíte de Kanye West, o rapper, produtor musical, estilista e empresário que no último dia 4 de julho anunciou sua candidatura à presidência dos Estados Unidos. Pelo comportamento errático que demonstrou nos últimos dias, West pode voltar atrás na decisão a qualquer momento — e em seguida se desmentir novamente.

A última campanha presidencial americana, em 2016, já foi repleta de esquisitices. O bilionário e apresentador de reality shows Donald Trump se elegeu presidente apesar de ter recebido menos votos do que a adversária Hillary Clinton (o que só é possível por causa do sistema de voto indireto vigente nos Estados Unidos) e apesar das acusações de assédio sexual e declarações politicamente incorretas que envolveram seu nome.

A verdade é que Trump foi certeiro em sua caótica estratégia eleitoral em 2016, identificando uma "maioria silenciosa" de insatisfeitos com os impactos da globalização e com as transformações da atualidade. Não era exatamente uma maioria, como se viu, mas tinha poder eleitoral suficiente para eleger o presidente.

A história este ano é outra, mas também não faltam esquisitices. O bom desempenho econômico e de oferta de empregos no país foi atropelado pela pandemia do novo coronavírus, agravada pela postura negacionista e pela falta de liderança de Trump para lidar com a crise na saúde pública.

O contexto é tão adverso para Trump que seu maior rival nas urnas, o democrata Joe Biden, lidera as pesquisas de intenção de voto com uma vantagem de dois dígitos, apesar de ser o que no Brasil se convencionou chamar de "picolé de chuchu": um candidato morno, sem grande carisma.

O anúncio de West adicionou um novo elemento de bizarria na campanha eleitoral. No último domingo (20), o rapper fez seu primeiro comício de campanha, em que apareceu com colete à prova de balas, revelou que só não insistiu para que sua mulher abortasse a filha (North, hoje com 7 anos) porque Deus falou com ele e chorou copiosamente.

Nos dias que se seguiram, acusou a família de querer interná-lo (ele já afirmou, no passado, que sofre de bipolaridade, um transtorno psiquiátrico) e disse que sua mulher poderia pedir o divórcio. Keyne West é casado com Kim Kardashian, que dispensa apresentações e cuja profissão é ser Kim Kardashian. Nesta quarta-feira (22), ele perguntou aos seguidores no Twitter se deveria adiar para 2024 os planos de disputar a Casa Branca.

Mesmo que West decida seguir adiante com seus planos eleitorais, é praticamente impossível que ele se eleja presidente. Isso porque, para ter seu nome nas cédulas, ele precisaria se inscrever nos estados — e na maioria deles, o prazo para isso já expirou. Em outros, como a Carolina do Sul, West falhou em conseguir o número mínimo de assinaturas para se registrar.

West disse que seu partido se chama Birthday Party, um trocadilho com a palavra "party", que em inglês pode significar tanto "festa", quanto "partido". O nome, segundo ele, se deve ao fato de que, se for eleito, vai ter aniversário todo dia para todo mundo. A "Festa de Aniversário" de West foi de fato registrada na autoridade federal que controla as finanças das campanhas como o partido que embasa sua candidatura. Mas isso não garante que a campanha de West seja para valer.

Se não há a chance real de West se eleger presidente, ainda assim há a possibilidade de que ele consiga submeter seu nome à votação em alguns estados, "puxando" votos que iriam para Biden, por exemplo, que tem boa aceitação entre os eleitores negros.

Mas o mais provável, mesmo, é que a aventura política de West seja apenas um curto sonho de verão, motivada por uma estratégia para lançar um novo disco (que ele diz que sai nesta sexta-feira e que se chamará Donda, o nome de sua mãe, falecida em 2007) ou por um episódio maníaco de seu transtorno bipolar. Ou ambos.

Nesta quarta-feira (22), em seu perfil no Instagram, Kim atribuiu o comportamento de West nos últimos dias ao transtorno bipolar. "Todos que sofrem disso ou têm algum ente querido com isso sabe como é incrivelmente complicado e doloroso de se compreender", escreveu Kim Kardashian. Se for esta a razão para o arroubo eleitoral de West, resta torcer para que ele supere essa fase difícil o mais rápido possível.

(O texto foi corrigido: a versão original afirmava que Joe Biden lidera as pesquisas com uma vantagem de dois pontos percentuais, quando se queria dizer que a diferença é de dois dígitos.)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Diogo Schelp