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Diogo Schelp


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Explosão em Beirute ocorreu em dia de flexibilização de isolamento social

Feridos após explosão em Beirute aguardam atendimento em frente a hospital na capital do Líbano - IBRAHIM AMRO/AFP
Feridos após explosão em Beirute aguardam atendimento em frente a hospital na capital do Líbano Imagem: IBRAHIM AMRO/AFP
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

05/08/2020 17h51

Por uma trágica coincidência, a explosão que causou mais de uma centena de mortes e devastou boa parte de Beirute nesta terça-feira (4) aconteceu justamente durante uma curta janela de dois dias de flexibilização nas medidas de isolamento social para conter a pandemia de covid-19 no Líbano.

Isso significa que restaurantes e cafés estavam abertos, trabalhando com 50% da capacidade, e havia mais pessoas nas ruas passeando e resolvendo pendências antes do retorno do lockdown, que estava previsto para recomeçar nesta quarta-feira (5). Bares, casas noturnas e parques, contudo, continuavam fechados.

A retomada do lockdown foi suspensa por tempo indefinido depois da explosão, que deixou cerca de 300.000 pessoas desabrigadas.

O Líbano foi um dos países que mais cedo adotou medidas de distanciamento social para conter a pandemia do novo coronavírus. Os primeiros casos de infecção foram relatados em 21 de fevereiro e sete dias depois os estabelecimentos de ensino já estavam com suas atividades suspensas. Restaurantes e atrações turísticas foram fechados no dia 6 de março.

A pandemia teve um impacto desastroso na sociedade libanesa, que já enfrentava uma grave crise econômica, uma alta taxa de desemprego e intensos protestos políticos. Ainda assim, as medidas de distanciamento conseguiram manter a contaminação por covid-19 em patamares relativamente baixos.

Em junho, a incidência de mortos por covid-19 em proporção à população era de 5/milhão de habitantes, contra 209/milhão no Brasil.

No início de julho, porém, pressionadas pela situação econômica e social, as autoridades começaram a flexibilizar as medidas restritivas. Não faltaram, também, escândalos que expuseram a hipocrisia de membros do governo: descobriu-se, por exemplo, que o ministro da Saúde deu autorizações especiais para que sete casais realizassem casamentos em meio à pandemia, o que estava proibido.

A flexibilização, que incluiu a reabertura do aeroporto de Beirute, levou a uma nova onda de contaminação pelo novo coronavírus. Na segunda metade de julho, foram registrados 175 novos casos em um dia, sendo a que a média nos meses anteriores era de 20 pacientes confirmados por dia.

Para conter a alta no número de contaminações, as autoridades libanesas decidiram, no final de julho, dar um passo atrás e retomar as medidas de isolamento social. O governo estipulou um lockdown de 30 de julho a 3 de agosto e depois por mais cinco dias a partir desta quarta-feira (5).

Dados do Google apontam que as medidas tiveram efeito: na sexta-feira (31), a circulação de pessoas no comércio e em atividades de recriação havia caído 73% em Beirute.

Na segunda-feira (4) e a terça-feira (5), porém, o lockdown encontrava-se parcialmente suspenso. Infelizmente, foi justamente nessa janela de exceção que a explosão no porto de Beirute aconteceu.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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