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Diogo Schelp

Na ativa ou na reserva, manter general Pazuello na Saúde é insustentável

O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, concede entrevista sobre a vacinação contra a covid-19 no país - Tânia Rêgo/Agência Brasil
O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, concede entrevista sobre a vacinação contra a covid-19 no país Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

18/01/2021 11h27

Em maio do ano passado, quando assumiu interinamente o Ministério da Saúde, após a passagem relâmpago pela pasta do oncologista Nelson Teich, o general Eduardo Pazuello foi apresentado como um especialista em logística. Na falta de conhecimento sobre saúde pública — ou, na realidade, sobre qualquer tema relacionado à medicina e à ciência —, era esse know how, o de logística, que o governo usou como justificativa para colocar o militar à frente do ministério cuja atuação seria crucial para o sucesso ou o fracasso na gestão da pandemia do novo coronavírus.

Pazuello havia sido coordenador logístico do Exército nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, e posteriormente esteve a cargo da Operação Acolhida, que recebeu refugiados venezuelanos em Roraima. Um currículo adequado para assumir a missão do Ministério da Saúde de assistir estados e municípios com recursos e insumos no combate à covid-19.

Mas logo ficou claro que o motivo para Pazuello estar no comando da pasta não era bem sua propalada experiência em logística, mas sim fazer valer a visão tacanha que o presidente Jair Bolsonaro tinha a respeito do que deveria ser feito em relação à pandemia.

Essa visão havia sido o motivo principal para a saída de Nelson Teich — e, antes dele, de Luiz Henrique Mandetta — do ministério. Bolsonaro insistia que o ministério deveria promover medicamentos sem comprovação científica para covid-19, principalmente a hidroxicloroquina, e se opor a medidas de distanciamento social.

Pazuello caiu nas graças do presidente justamente por se prestar ao papel de promotor da cloroquina e de minimizar a importância de reduzir a taxa de transmissão do vírus na população por meio de medidas restritivas.

Imbuído dessas prioridades, fez seu infame discurso em Manaus, três dias antes do colapso do sistema de saúde do Amazonas, em que reconheceu que faltava oxigênio nos hospitais do estado, mas que não podia fazer nada. Em vez disso, fez uma ode às maravilhas do chamado "tratamento precoce", a recomendação de medicamentos para pacientes nos estágios iniciais da doença que não passa de uma ilusão sem comprovação científica. Os técnicos e diretores da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) que recomendaram a aprovação emergencial das vacinas contra a covid-19, neste domingo (17), reforçaram esse fato: não há alternativa terapêutica disponível eficiente contra a doença. Em outras palavras: não existe "tratamento precoce".

Existe, sim, a certeza de que oxigênio salva vidas. O Ministério da Saúde já havia sido alertado dias antes do esgotamento dos estoques do insumo no Amazonas, mas pouco foi feito. Foram enviados cilindros em aviões da Força Aérea Brasileira, mas em quantidade insuficiente para a demanda.

O colapso do sistema de saúde do Amazonas, que resultou na morte de pacientes com covid-19 por asfixia, pode ser atribuído a falhas do governo estadual tanto em antever o problema (o consumo de oxigênio nos hospitais vinha crescendo desde novembro) quanto em minimizá-lo (se não tivesse recuado da decisão de impor um lockdown em dezembro, por exemplo). Mas é também um atestado do fracasso das habilidades em logística do general Pazuello.

Quanto à vacina contra a covid-19, a atuação do general Pazuello também foi errática. O governo só costurou um acordo para testar e ter acesso à vacina do laboratório AstraZeneca e da Universidade de Oxford, via Fiocruz, depois que o governo do estado de São Paulo anunciou a parceria com a chinesa Sinovac.

Posteriormente, quando ficou claro que a vacina do Instituto Butantan estaria disponível no Brasil antes que a de Oxford, Pazuello teve de voltar atrás na assinatura de um contrato de intenção de compra da CoronaVac por ordem de Bolsonaro, que respondeu a um questionamento de um adolescente no Facebook dizendo: "Não será comprada." Agora, não só está sendo comprada como, por enquanto, é a única vacina disponível para aplicação imediata no Brasil.

O Ministério da Saúde de Pazuello também se envolveu em uma das maiores trapalhadas logísticas dessa pandemia que foi o atraso no processo de compra de agulhas e seringas para a vacinação. Só saiu da inércia seis meses depois de ser questionado, pelo Ministério da Economia, sobre a intenção de comprar os insumos.

Pazuello é uma nódoa para a imagem das Forças Armadas, que nas últimas décadas se notabilizaram em atividades de manutenção da paz, socorrendo os cidadãos brasileiros em momentos de dificuldades, em tragédias naturais, em crises de segurança pública e em ações cívicas e sociais.

Essa imagem não ficará menos arranhada se Pazuello for para a reserva (ele ainda é um militar da ativa, ao contrário da maioria dos integrantes do governo). Sua permanência no Ministério da Saúde é insustentável em todos os aspectos, menos na teimosia do presidente da República em mantê-lo lá.