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Diogo Schelp

Para não espalhar bobagens no zap: 10 estudos desacreditados sobre covid-19

Artigos pipocaram sem respaldo científico, foram depois anulados, mas o estrago estava feito: até hoje tem alguém dizendo que 5G causa covid-19 - iStock
Artigos pipocaram sem respaldo científico, foram depois anulados, mas o estrago estava feito: até hoje tem alguém dizendo que 5G causa covid-19 Imagem: iStock
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

07/01/2021 04h03

No primeiro ano da pandemia do novo coronavírus (infelizmente não acabou), a ciência foi pressionada a queimar etapas. Vacinas para prover proteção contra a covid-19 foram desenvolvidas e testadas em tempo recorde. Pesquisadores deram uma pausa em outros projetos e dedicaram-se a estudar a nova ameaça natural por múltiplos ângulos.

Como escreveu o filósofo da ciência Thomas Kuhn, os cientistas, ao contrário dos médicos, não precisam de urgência. A covid-19 rompeu essa barreira. Em condições normais, um artigo científico leva de três a quatro meses, em média, para ser divulgado, a partir do momento em que é submetido para publicação.

Isso porque revistas científicas sérias, além de fazerem a própria avaliação do artigo recebido, costumam enviá-lo a outros dois ou três especialistas da área (os peer reviewers), que analisam os detalhes, apontam erros, pedem melhorias ou, quando não veem conserto, simplesmente rejeitam o texto completamente.

Durante a pandemia, pela necessidade de encontrar respostas rápidas, popularizou-se a prática de divulgar os estudos na internet na modalidade de preprint (literalmente, "antes da impressão"), ou seja, quando o artigo ainda está fresquinho e sequer foi ainda submetido ao escrutínio dos pares. Em alguns casos, isso fez com que bobagens fossem tratadas como ciência, dando combustível para teorias conspiratórias e fake news.

Desde o início da pandemia, a equipe de cientistas e especialistas em divulgação científica do Retraction Watch, um site que monitora artigos que caíram em desgraça, já identificou 60 estudos sobre a covid-19 que resultaram em retratação. Na lista a seguir, que apresenta dez artigos sobre covid-19 que foram retirados de circulação, muitos foram publicados em plataformas preprint. Mas nem todos. Alguns foram aceitos por editores de revistas de renome — igualmente acometidos pelo vírus da pressa:

1 - "O novo coronavírus contém traços genéticos do HIV"

O artigo foi publicado por pesquisadores indianos em fevereiro de 2020 em uma plataforma preprint, com o título "Uncanny similarity of unique inserts in the 2019-nCoV spike protein to HIV-1 gp120 and Gag", e dava a entender que há similaridades "misteriosas" entre o novo coronavírus e o vírus da Aids, alimentando teorias conspiratórias de que a nova doença é criação humana ou foi desenvolvida em laboratório. As conclusões provaram-se falsas e os autores retiraram o artigo "para revisão".

2 - "Máscaras não servem de proteção contra covid-19"

O artigo "Effectiveness of Surgical and Cotton Masks in Blocking SARS-CoV-2: A Controlled Comparison in 4 Patients" causou espanto na comunidade científica ao ser publicado em abril de 2020 no Annals of Internal Medicine, dos Estados Unidos. Sua conclusão era de que tanto máscaras cirúrgicas como de pano são ineficientes em prevenir a transmissão do novo coronavírus.

O maior defeito do estudo, mas não o único, era a amostragem ridiculamente pequena: apenas quatro indivíduos participaram dos testes. A retratação veio tarde, apenas em junho.

5.jan.2020 - O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, deixa sua residência oficial em Downing Street de máscara - John Sibley/Reuters - John Sibley/Reuters
5.jan.2020 - O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, deixa sua residência oficial em Downing Street de máscara
Imagem: John Sibley/Reuters

3 - "Hidroxicloroquina funciona"

O médico francês Didier Raoult — autor de um estudo sobre a hidroxicloroquina que, apesar de repleto de falhas e de conduzido com métodos para lá de duvidosos, serviu de base para a crença cega no medicamento como eficaz contra a covid-19 — foi um dos que aplaudiram o artigo "Hydroxychloroquine plus azithromycin: a potential interest in reducing in-hospital morbidity due to COVID-19 pneumonia (HI-ZY-COVID)?", publicado em maio em preprint por pesquisadores americanos.

Os autores acabaram retirando o artigo por trazer conclusões equivocadas com base em uma análise retrospectiva de casos (e não em um ensaio clínico). Posteriormente, uma revista editada por Raoult publicou uma nova versão do artigo que dava menos ênfase à relevância da hidroxicloroquina na recuperação dos pacientes.

Raoult foi denunciado em setembro do ano passado pela Sociedade de Patologia Infecciosa francesa por "promoção indevida de medicamento". Há um consenso entre as principais sociedades de infectologia do mundo de que o remédio não é eficaz no tratamento de covid-19.

4 - "Hidroxicloroquina não funciona"

Não funciona, mesmo, mas o estudo "Hydroxychloroquine or chloroquine with or without a macrolide for treatment of COVID-19: a multinational registry analysis" e um editorial nele baseado, publicados no jornal científico The Lancet em maio, provocaram ruído nessa mensagem ao basear suas análises em um banco de dados problemático.

Os pesquisadores confiaram na credibilidade da empresa que forneceu as informações pois era aprovada pela FDA, a Anvisa dos Estados Unidos. O artigo foi retirado pelo The Lancet, mas outros estudos sérios chegaram a resultados parecidos, alertando para os riscos de ministrar hidroxicloroquina a pacientes com covid-19, além de sua ineficácia.

O editorial sobre os perigos do medicamento foi corrigido e republicado.

Jair Bolsonaro segura caixa de cloroquina do lado de fora do Palácio da Alvorada - REUTERS/Adriano Machado - REUTERS/Adriano Machado
O presidente Bolsonaro e seus ministros apoiam o uso de cloroquina contra a covid-19. Recentemente o vice-presidente Mourão tomou o medicamento ao contrair a virose
Imagem: REUTERS/Adriano Machado

5 - "A vibração sonora mata o coronavírus"

A revista de farmacologia indiana Journal of Molecular Pharmaceuticals and Regulatory Affairs publicou um artigo com o título "Corona Virus Killed by Sound Vibrations Produced by Thali or Ghanti: A Potential Hypothesis" (esse vale a pena traduzir: "Coronavíus morto pelas vibrações sonoras produzidas por thali ou ghanti: Uma Hipótese Potencial"). Thalis são pratos indianos e ghanti são sinos tradicionais no país asiático.

Tem pegadinha aqui. Aparentemente, os autores tentaram fazer um manifesto político por meio de um artigo pseudocientífico. Isso porque, em março, o primeiro-ministro Narendra Modi havia pedido que os indianos batessem pratos de metal e tocassem sinos para homenagear os profissionais de saúde que trabalhavam na linha de frente contra a covid-19.

O episódio resultou em uma crise política depois de um aliado de Modi afirmar, em áudio vazado para a imprensa, que a ideia de bater pratos para derrotar o coronavírus "era um recorde de estupidez".

O artigo sobre as vibrações matadoras de corona foi retirado com a justificativa de que as informações nele contidas "estavam causando intensos conflitos na comunidade científica".

6 - "Dá-lhe vermífugo"

Publicado em abril, o artigo "Ivermectin in COVID-19 Related Critical Illness" foi retirado no mês seguinte. A hipótese, já desacreditada, de que o antiparasitário pode ser usado no tratamento de covid-19 deve muito a esse estudo, que colheu suas variáveis na mesma base de dados contestada que foi pivô da polêmica do artigo do The Lancet sobre cloroquina (veja item 4).

Depois da retirada do artigo, o Peru e outros países riscaram a ivermectina dos seus protocolos de tratamento de covid-19. A Sociedade Brasileira de Infectologia também descarta seu uso.

Vitamina D, sol - iStock - iStock
Eficácia da vitamina D contra a covid-19 é constantemente tema nesta pandemia. Ela é boa para o organismo, mas não há comprovação no uso contra o coronavírus
Imagem: iStock

7 - "Ô, sol, vê se não esquece"

Pelo menos quatro artigos sugerindo que a vitamina D previne contra covid-19 foram retirados de circulação por seus autores, depois de publicados. São eles "Patterns of COVID-19 Mortality and Vitamin D: An Indonesian Study", "The Role of Vitamin D in Suppressing Cytokine Storm in COVID-19 Patients and Associated Mortality", "Vitamin D Level of Mild and Severe Elderly Cases of COVID-19: A Preliminary Report" e "Vitamin D supplementation could possibly improve clinical outcomes of patients infected with Coronavirus-2019 (COVID2019)".

Ainda assim, volta e meia aparece um novo estudo tentando estabelecer uma correlação entre baixos índices de vitamina D e covid-19.

8 - "Coronavírus é produzido por tecnologia 5G"

Em julho de 2020, um artigo publicado na Biological Regulators & Homeostatic Agents com o título "5G Technology and induction of coronavirus in skin cells" alegava que as ondas emitidas pela tecnologia 5G são absorvidas pelas células da pele e transferidas para outras células do corpo, onde produzem o coronavírus.

Um disparate completo que levou à retirada do artigo uma semana depois, não sem antes ser "absorvido na pele" de conspiracionistas que acreditam que a China (detentora da mais avançada tecnologia 5G) criou o novo coronavírus para dominar o mundo.

9 - "Covid-19 mata mais que patinetes: cloroquina nela!"

O artigo que chega a essa conclusão propositalmente estapafúrdia foi publicado em agosto para provar o caráter mercenário da publicação Asian Journal of Medicine and Health, acusada de dar espaço para textos de qualquer qualidade, desde que pagando.

O Asian Journal havia publicado um artigo defendendo a hidroxicloroquina — assinado por autores com interesses políticos diretos na aprovação do medicamento, entre os quais um deputado francês.

Para provar que qualquer coisa entrava na publicação, dois estudantes de graduação na Suíça produziram essa pérola, com o título "SARS-CoV-2 was Unexpectedly Deadlier than Push-scooters: Could Hydroxychloroquine be the Unique Solution?", comparando as mortes por covid com os óbitos em acidentes de patinetes e apontando a cloroquina como solução.

O artigo-denúncia foi retirado do ar pelo Asian Journal. O outro, não.

10 - "Amuletos anticovid"

A revista Science of the Total Environment publicou — e depois retirou, a pedido dos próprios autores — um artigo sugerindo que determinado tipo de amuleto rochoso era capaz de afetar as moléculas do novo coronavírus, por meio de "catálise magnética".

O título, quilométrico e de tradução inviável, é "Can Traditional Chinese Medicine provide insights into controlling the COVID-19 pandemic: Serpentinization-induced lithospheric long-wavelength magnetic anomalies in Proterozoic bedrocks in a weakened geomagnetic field mediate the aberrant transformation of biogenic molecules in COVID-19 via magnetic catalysis".

Não, os amuletos não espantam o novo coronavírus.