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Diogo Schelp

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Antes de vacinação em massa, novos casos aumentam 71% em cidade paulista

Moradores da cidade de Botucatu, no interior de São Paulo, recebem o imunizante contra a covid-19, da Oxford/Astrazeneca, neste domingo, 16 - Vitor Orsola/Estadão Conteúdo
Moradores da cidade de Botucatu, no interior de São Paulo, recebem o imunizante contra a covid-19, da Oxford/Astrazeneca, neste domingo, 16 Imagem: Vitor Orsola/Estadão Conteúdo
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

17/05/2021 17h45

Em apenas dez horas, neste domingo (16), 63% de toda a população adulta de Botucatu, no interior de São Paulo, recebeu a primeira dose da vacina de Oxford/AstraZeneca contra covid-19. Outros 24%, entre idosos e profissionais de saúde, já haviam sido contemplados anteriormente pelos critérios de prioridade do Programa Nacional de Imunização (PNI). Nesta e na próxima semana, serão vacinados os restantes 13% dos moradores da cidade com 18 anos ou mais.

A vacinação em massa no município do oeste paulista faz parte de um estudo de efetividade da Covishield, o imunizante desenvolvido pela Universidade de Oxford e pelo laboratório AstraZeneca e envasado no Brasil pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

O município tem cerca de 150.000 habitantes, dos quais 105.000 são maiores de idade. O Ministério da Saúde doou 80.000 doses da vacina para a realização do estudo, que tem como propósito entender o impacto do imunizante em uma população real, fora do contexto de um ensaio clínico com voluntários.

Quando a realização do estudo foi anunciada, no final de abril, os botucatuenses reagiram à boa notícia com alívio e orgulho, como não podia deixar de ser.

No entanto, na semana epidemiológica encerrada no sábado (15), um dia antes da tão esperada vacinação em massa, foi registrado um aumento de 71% no número de novos casos de covid-19 na cidade, em comparação com a semana anterior. Em números absolutos, foi a segunda semana com maior número de novos pacientes da doença na cidade desde o início da pandemia, com 629 testes positivos.

André Spadaro, secretário de Saúde do município, considera que dois fatores podem ter contribuído para esse aumento. O primeiro foi o Dia das Mães, há uma semana, que, como outras datas comemorativas, costuma ensejar reuniões familiares e aglomerações propícias para a transmissão do vírus.

O segundo fator que pode ter contribuído foi a própria expectativa em relação à imunização em massa, que deu à população "um certo grau de euforia, de sensação de segurança antes mesmo da vacinação", diz Spadaro.

O infectologista Alexandre Naime Barbosa, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Botucatu, avalia que essa falsa sensação de segurança foi motivada pelas medidas de flexibilização das restrições adotadas em todo o estado nas últimas semanas. "O clima de oba-oba, de liberou geral, levou a um aumento no número de casos em outras cidades da região, não apenas em Botucatu", diz o médico.

De qualquer forma, a prefeitura e os coordenadores do estudo estão preocupados com a possibilidade de a população, recém-vacinada com a primeira dose, abandonar os cuidados sanitários, como uso de máscaras e o distanciamento social, antes mesmo do prazo de três semanas para que o imunizante comece a fazer efeito e muito antes da segunda dose, que só será aplicada em agosto.

"Estamos trabalhando na comunicação junto aos cidadãos para explicar que é preciso manter os cuidados de antes", diz o secretário de Saúde. "Até porque, para que o estudo dê certo, é preciso que Botucatu mantenha medidas de restrição parecidas com as dos outros municípios da região, com os quais os dados pós-vacinação em massa serão comparados."

O estudo com a vacina de Oxford/AstraZeneca em Botucatu está sendo realizado por cientistas da Unesp em parceria com a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), a Universidade de Oxford, a Fiocruz, o Ministério da Saúde, a Fundação Bill e Melinda Gates e a prefeitura da cidade.

Além de comparar a incidência de novos casos de covid-19 antes e depois da vacinação em massa e com os municípios vizinhos, será possível saber também a efetividade do imunizante contra as diferentes cepas do novo coronavírus, pois todos os testes positivos na cidade passarão por sequenciamento genético.

Trata-se de um estudo essencial, portanto, para conhecer o impacto que uma das principais vacinas à disposição no Brasil terá nos esforços para conter a pandemia em todo o país.