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Diogo Schelp

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Impunidade para Pazuello abriu precedente para politização da PM

23.mai.2021 - O presidente Jair Bolsonaro discursa em um comício no Rio de Janeiro, Brasil, em 23 de maio de 2021, ao lado do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello - ANDRE BORGES / AFP
23.mai.2021 - O presidente Jair Bolsonaro discursa em um comício no Rio de Janeiro, Brasil, em 23 de maio de 2021, ao lado do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello Imagem: ANDRE BORGES / AFP
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

23/08/2021 16h16

Era só questão de tempo para que policiais militares bolsonaristas da ativa começassem a exibir suas armas e suas fardas em defesa de uma causa política. Se já era difícil conter a politização das forças de segurança estaduais, a decisão do Exército de não punir o general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, por ter participado de ato político ao lado do presidente Jair Bolsonaro, em maio, abriu as comportas da insubordinação.

Ninguém duvida que a simpatia a Bolsonaro é proporcionalmente maior dentro das corporações policiais do que fora dela. Daí a começarem a expor essa preferência abertamente e a convocar protestos contra instituições da República, como o Supremo Tribunal Federal (STF), é um passo além, preocupante e inadmissível. Como bem escreveu o deputado estadual Heni Ozi Cukier (Novo-SP), "não existe democracia se o braço armado do Estado escolhe um lado".

Se policiais saem às ruas para defender um projeto político, seus opositores não se sentirão seguros para fazer o mesmo. E não estarão mesmo.

O governador de São Paulo, João Doria, agiu corretamente ao afastar o coronel da PM Aleksander Toaldo Lacerda do comando de sete batalhões do interior do estado, depois que vieram à tona suas mensagens de convocação de "amigos" para os protestos bolsonaristas de 7 de setembro. A Corregedoria da PM estaria analisando o caso. Mas pode não ser suficiente.

Em junho, a maior crítica à decisão do comandante do Exército, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, de não punir Pazuello por ferir o regramento militar que proíbe a participação em atos políticos era justamente o fato de que isso daria um péssimo exemplo a outros generais e principalmente aos escalões mais baixos do oficialato, inclusive nas PMs.

A decisão de manter Pazuello impune oficializou a indisciplina e a quebra de hierarquia — e incentivou, como seguirá incentivando, insubordinações como a do coronel Lacerda.

Esse é o melhor dos mundos para Bolsonaro, que não pensa em governar ou aprovar as reformas de que o país precisa, apenas em ver o circo pegar fogo para empastelar as eleições de 2022 ou reinar no caos institucional.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL