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Diogo Schelp

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Saiba as diferenças entre Talibã e Estado Islâmico e por que eles brigam

Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

26/08/2021 15h24Atualizada em 26/08/2021 20h58

As potências ocidentais que agora batem em retirada do Afeganistão estavam há dias alertando para o risco de atentados do grupo terrorista Estado Islâmico no aeroporto de Cabul, onde diariamente milhares de afegãos se amontoam na esperança de fugir do Talibã, que tomou conta da capital e da maior parte do país. E eis que nesta quinta-feira (26), o temor se confirmou com duas explosões, provavelmente causadas por homens-bomba.

Ao menos 72 pessoas, incluindo crianças, morreram no atentado, que está sendo atribuído ao Estado Islâmico no Khorasan (ou ISIS-K, na sigla em inglês). Khorasan é um nome antigo do Afeganistão que a matriz do Estado Islâmico no Iraque e na Síria passou a usar para se referir à sua primeira filial fora do mundo árabe.

Mas por que o Estado Islâmico está promovendo ataques terroristas no Afeganistão agora que os Estados Unidos estão se retirando e o controle do país voltou ao controle do Talibã, que também é um grupo fundamentalista islâmico?

O motivo é que o Talibã e o Estado Islâmico são inimigos desde que o segundo grupo se instalou no país, em 2015, infiltrando-se entre radicais afegãos e cooptando comandantes do Talibã que caíram no ostracismo por causa de disputas internas, principalmente depois da morte do líder talibã Mullah Omar, anunciada em julho daquele ano.

Na ocasião, o ISIS-K passou a ser combatido tanto por meio de bombardeios de drones americanos como por enfrentamentos diretos com uma força especial do Talibã criada especialmente para esse fim.

A luta entre o Talibã e o Estado Islâmico tem um componente de disputa de poder, mas também se fundamenta em diferenças religiosas e ideológicas entre os dois grupos.

Ambos pertencem à corrente sunita do islamismo e pregam uma interpretação radical da religião, além de rechaçarem de forma violenta os valores ocidentais.

O Talibã, no entanto, segue a escola Hanafi do direito islâmico, a mais antiga e tradicional, enquanto o Estado Islâmico segue o salafismo ou wahabismo, vertentes mais recentes da escola Hanbali. No entendimento do Estado Islâmico, a aplicação de regras sociais e culturais por meio da sharia pelo Talibã não é rígida o suficiente.

O Talibã também costuma ser associado, principalmente por seus detratores do Estado Islâmico, ao sufismo, por ser esta uma linha mística do islamismo predominante no Afeganistão, apesar de ela ter sido suprimida durante o regime talibã.

O talibã também é menos engajado na violência sectária contra os xiitas, a segunda maior corrente do islamismo (prevalente, por exemplo, no Irã, país vizinho ao Afeganistão), do que outros grupos radicais sunitas.

O Estado Islâmico considera que os sufistas são politeístas (por causa da veneração de santos) e que os xiitas são apóstatas, e por isso devem ser eliminados com a morte.

Há diferenças profundas também na abordagem que os dois grupos dão à Jihad, a guerra santa.

Como expliquei aqui, a ideologia do Talibã foi influenciada pelo egípcio Said Qutb, ideológio da Irmandade Muçulmana, exceto no seu aspecto pan-islamista ou antinacionalista. Afinal, o Talibã tem como objetivo a implantação de um estado islâmico dentro das fronteiras do Afeganistão.

Já a guerra santa do Estado Islâmico é global. Tem, portanto, uma finalidade expansionista, com o objetivo de implantar uma única entidade política em todos os territórios islâmicos. Não há espaço, nessa ideologia, para a coexistência de dois ou mais estados islâmicos, e por isso o Talibã precisa ser eliminado.

O Estado Islâmico nasceu da filial da Al Qaeda no Iraque. A Al Qaeda original, criada pelo terrorista saudita Osama Bin Laden, o mentor dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, também tinha por ideologia a Jihad global e o pan-islamismo.

Mas a Al Qaeda, que foi acolhida no Afeganistão nos anos 1990, reconhecia a autoridade do Talibã. Era uma aliança de conveniência.

Essa tolerância mútua não existe entre Estado Islâmico e Talibã. São inimigos mortais e a guerra entre eles é provavelmente a próxima a ser travada em território afegão.

Do ponto de vista geopolítico, isso significa que China, Rússia, Paquistão e possivelmente as potências ocidentais vão preferir apoiar o Talibã em sua luta contra o Estado Islâmico a ter de enfrentar as consequências do crescimento da filial afegã do grupo jihadista de aspirações globais.

Ou seja, apostando no pragmatismo da comunidade internacional, o Talibã terá a chance de tentar se legitimar externamente, apesar da opressão que venha a impor aos afegãos e do revanchismo contra quem apoiou os americanos.

Depois de ser expulso do Iraque e esmagado na Síria, o Estado Islâmico pode tentar usar a retirada americana e de seus aliados do Afeganistão para usar o país como base para campanhas de terror internacional. Como o Talibã vai reagir a isso é uma questão com grande impacto na segurança global.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL