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Diogo Schelp

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

CPI esbarra em relações de lobista da Precisa com família Bolsonaro

Marconny Faria presta depoimento para a CPI da Covid - Pedro França/Agência Senado
Marconny Faria presta depoimento para a CPI da Covid Imagem: Pedro França/Agência Senado
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

15/09/2021 16h31

Em depoimento à CPI da Covid do Senado nesta quarta-feira (15), o empresário Marconny Albernaz de Faria, suspeito de ter atuado nos bastidores para facilitar negócios da Precisa Medicamentos com o Ministério da Saúde, foi entregando aos poucos o grau de intimidade que tem com membros da família de Jair Bolsonaro.

Primeiro, quando perguntado, disse que não tem relações com o clã do presidente. Depois, admitiu ter ajudado Jair Renan Bolsonaro, o filho 04, a abrir uma empresa, indicando-lhe "um advogado tributarista".

Por fim, reconheceu ter uma relação de "amizade" com Jair Renan, iniciada há cerca de dois anos, tendo inclusive realizado uma festa de aniversário no camarote dele no Estádio Mané Garrincha, em Brasília. Mais para frente, tentou minimizar, dizendo que eram apenas "colegas".

Modéstia do empresário. Conforme relatou o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), com base em informações colhidas pela CPI, Jair Renan é frequentador assíduo das festas que Faria realiza em seu condomínio, a ponto de o empresário ter dito que o síndico "devia ser petista", porque sempre reclamava do barulho quando o filho do presidente comparecia.

Mais uma vez em seu depoimento, Marconny minimizou: Jair Renan teria ido apenas "três ou quatro vezes" na sua casa.

O lobista também conhece Ana Cristina Siqueira Valle, a ex-mulher de Bolsonaro, mãe de Jair Renan, com quem inclusive dividiu almoços, nos quais, garante ele, as contas eram divididas.

Marconny Faria diz que não obteve qualquer vantagem "milionária" com as relações de amizade que possui nas altas esferas de Brasília.

No entanto, em uma das mensagens de seu celular citadas na sessão da CPI surge o indício de que ele conseguiu emplacar a nomeação de uma pessoa para um cargo no Ministério da Saúde por intermédio da ex de Bolsonaro, segundo ela "na conta do Renan".

Feita por intermédio de Karina Kufa, advogada do presidente Bolsonaro, a indicação feita por Faria levou à contratação de Marcio Roberto Teixeira Nunes para o Instituto Evandro Chagas, no Pará, que é vinculado ao Ministério da Saúde. O indicado de Faria acabou sendo preso poucos meses depois por um esquema de desvio de recursos públicos investigado pela Polícia Federal.

A atividade de lobby, que no Brasil os profissionais preferem chamar de relações governamentais, nada tem errado, desde que feita de forma transparente e sem a finalidade de desrespeitar a lei.

Marconny Faria, conforme sugerem as evidências levantadas pela CPI, porém, atuava em uma zona cinzenta que pode configurar tráfico de influência. Por exemplo, ele teria sido contratado pela Precisa Medicamentos (sem contrato formal, segundo ele próprio admitiu) para atuar em uma negociação para a venda de testes de covid-19 ao Ministério da Saúde que se caracterizou por uma tentativa de fraudar o processo de licitação.

Há algo de muito errado nas relações de "amizade" do lobista com o filho, a ex-mulher e a advogada do presidente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL