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Felipe Moura Brasil

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A primazia absoluta do dinheiro no bolsonarismo

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Felipe Moura Brasil

Felipe Moura Brasil é âncora da BandNews FM e colunista do UOL. Vencedor do Prêmio Comunique-se na categoria Jornalista Influenciador Digital. Maior influenciador político do Brasil no Twitter, de acordo com estudo da empresa de big data Stilingue. Trabalhou nas revistas Veja e Crusoé, no site O Antagonista e na rádio Jovem Pan, onde também foi diretor de Jornalismo. Reúne suas várias frentes de trabalho em www.felipemourabrasil.com.

Colunista do UOL

25/09/2021 22h18

Joaquim Nabuco lamentou em 31 de agosto e 1 de setembro de 1901, quando exercia a diplomacia em Londres e escrevia seus Diários, a morte do amigo monarquista Eduardo Prado, autor de Fastos da ditadura militar no Brasil e A ilusão americana:

"Hoje recebi a notícia da morte do Eduardo Prado, de febre amarela, ontem em São Paulo. Quem lhe teria dito que essa seria a sua morte! Perco senão um amigo, quanto é rara a amizade! Um camarada, um da minha roda, do meu grupo de amigos, da banda literário-político-social a que pertenci. Em um momento, só a voz dele se levantou no campo monarquista para me sustentar."

Apesar desse carinho e até da gratidão pelo apoio à carreira diplomática em plena República, criticada pelos dois desde a Proclamação em 1889, Nabuco também lamentou seu potencial desperdiçado, não apenas em razão da morte aos 41 anos, mas da dispersão de Prado com complacências, obséquios e caprichos ainda em vida, em detrimento do foco em ideais mais grandiosos:

"No todo, ele era capaz de movimentos patrióticos, mas a vaidade, a camaradagem, o esprit de corps [espírito de grupo], o desejo de agradar, o respeito humano, ainda não se tinham purificado nele de modo a deixá-lo guiar-se por si mesmo e por seus próprios sentidos políticos."

O abolicionista incluiu Prado "entre todos" os seres humanos "capazes de melhores e maiores coisas, que se deixaram, porém, levar pelas correntes, dispersaram-se, multiplicaram-se, dissolveram-se às vezes em uma diversidade de vidas sem consciência de papéis que representaram como autômatos, e que no momento em que tudo se desfaz, sentem as vastas possibilidades que tinham em si e lastimam a estreiteza do tempo".

"Pobre Eduardo! Não se ter ele podido elevar acima de seus caprichos do momento, fechar os ouvidos às sereias que o atraíam, entregar-se todo às nobres paixões, aos grandes ideais que professava! Assim ele teria aproveitado tantas faculdades que apenas despendeu, teria deixado uma obra, além de panfletos que ele mesmo praticamente repudiou…"

Os negócios da família cafeicultora de Prado haviam crescido ao longo do Império, de modo que os rumos incertos do país sob novo regime político embaralhavam seus interesses.

"Como é verdadeira a palavra: não podeis servir a dois senhores!", registrou Nabuco. "Havia nele o sentimento da grandeza do asceta [que se entrega à vida espiritual] e a ambição do polimilionário; e o homem de negócio, precisado de rios de ouro, vencia, sobrepujava nele o homem de ideal, todos os ideais. Hélas [interjeição francesa para expressar lamento]! Esse é o mundo. A primazia do dinheiro é hoje absoluta."

Apesar do estudo do médico Emílio Ribas publicado naquele mesmo ano de 1901 no Brasil sobre a febre amarela (já recomendando "evitar águas estagnadas") e das ações de prevenção postas em curso por Oswaldo Cruz não sem enfrentar resistências, a vacina contra a doença que matou Eduardo Prado só chegaria ao país em 1937 e o laboratório para sua produção (Biomanguinhos) seria montado apenas na década de 1940, na fundação (Fiocruz) que levou o nome do bacteriologista e que hoje também produz vacinas contra Covid-19.

Prado, que sofria de artrite gotosa e viveu com medo de contrair febre amarela, estava longe de ser um negacionista, mas não dispôs de imunizante a tempo de proteger-se melhor.

Cento e vinte anos após sua morte precoce - quando o país chega a 600 mil mortos em pandemia, o ministro da Saúde ergue o dedo do meio contra manifestantes e a primeira-dama prefere se vacinar nos Estados Unidos -, o que se lamenta em diários intelectuais é ainda mais grave que talento inacabado, moral vacilante e personalidade irrealizada pela dispersão mundana, pela gastança e pela coleção de "pseudo-paixões": é, agora, toda uma claque de homens e mulheres de negócio, disfarçados de homens e mulheres de ideais, levando "rios de ouro" para fabricar em gabinetes, redes virtuais e microfones de marcas tradicionais favorecidas pelo governo a realidade paralela do bolsonarismo e do movimento antivacina, além do "tratamento precoce" da Prevent Senior.

Desprovidos do sentimento de grandeza do asceta e incapazes de movimentos genuinamente patrióticos, ex-atletas, ex-economistas, ex-advogados, ex-apresentadores, ex-repórteres, militares, assessores, blogueiros de crachá e demais subcelebridades semianalfabetas entregam-se ao lucrativo esprit de corps chapa-branca e ao desejo de agradar ao poder, tentando ludibriar brasileiros ingênuos e aloprados com teorias da conspiração, relativismos morais, cortinas de fumaça e "nós contra eles", enquanto o presidente que torrou 5,8 milhões de reais no cartão corporativo diz que não o utiliza.

A primazia do dinheiro federal é hoje absoluta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL