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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Encontro entre Bolsonaro e Biden foi frio, impessoal e protocolar

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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo ?Américas - EUA?, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do ?Em Dupla, Com Consulta?, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

10/06/2022 11h21Atualizada em 10/06/2022 13h57

Ocorreu ontem, em meio à programação da Cúpula das Américas, em Los Angeles, Estados Unidos, o primeiro encontro entre os presidentes Jair Bolsonaro e Joe Biden. Uma reunião fria, impessoal e absolutamente protocolar.

Por não ter fugido do script diplomático já cuidadosamente ensaiado, engana-se quem pensa que o conjunto de sensibilidades existente entre os dois líderes simplesmente foi superado. Ao contrário, a linguagem corporal revelava, no "não dito", a atmosfera incômoda em que a reunião acontecia. Não teve aperto de mãos público e houve limitada troca de olhares. No discurso, o esperado: referências à histórica relação bilateral e ao seu caráter cooperativo.

Muitas frases genéricas, afirmações de lugares comuns, mas sem nenhum anúncio substantivo ou indicação de novos projetos bilaterais relevantes. O encontro Bolsonaro-Biden não foi exatamente sobre política internacional ou sobre os interesses nacionais de Brasil e Estados Unidos. Foi, em vez disso, sobre agendas de conveniência para os dois presidentes.

No caso brasileiro, o foco, como todos sabem, estava em angariar material para explorar em sua campanha eleitoral. Bolsonaro tenta colecionar retratos com figuras emblemáticas da cena global visando contestar a narrativa dominante de que é um pária internacional, a frente de um país cada vez mais isolado e desprestigiado mundo afora.

No caso dos norte-americanos, e enquanto anfitriões da Cúpula, a reunião servia ao propósito de "conter danos" diante de um evento esvaziado e repleto de críticas e contestações. Depois de excluir Cuba, Venezuela e Nicarágua, e ter de amargar o boicote de uma série de outros países da região, que optaram por simplesmente não comparecer ao encontro, Biden precisou da presença brasileira para contrabalançar o fiasco hemisférico e resguardar sua própria credibilidade.

Com limites bem estabelecidos, sorrisos amarelos e tentando desviar do campo minado, o resultado foi um encontro pro forma, repleto de indiretas e vistas grossas, mas que atendeu aquilo a que se propunha. Apesar de suas intransponíveis diferenças pessoais, Bolsonaro e Biden se encontraram no que há de mais visceral da vida pública: a necessidade de salvar as próprias aparências.

Ao descrever sua experiência com o termo "maravilhado", o presidente brasileiro ajudou a passar esse recibo. Além do conhecido deslumbre com tudo o que vem do Norte e do habitual exagero em descrever seus próprios feitos, ele também deixou claro que o principal resultado do diálogo bilateral, nesta ocasião, foi uma retumbante e escancarada sensação de alívio.