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Jamil Chade


Santos Cruz vê "sensacionalismo" e diz que críticas da ONU não são claras

O general Carlos Alberto Santos Cruz em missão de paz no Haiti - AFP PHOTO - UNITED NATIONS PHOTOS / LOGAN ABASSI
O general Carlos Alberto Santos Cruz em missão de paz no Haiti Imagem: AFP PHOTO - UNITED NATIONS PHOTOS / LOGAN ABASSI
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

06/02/2020 12h01

As auditorias da ONU carecem de objetividade e não tratam da realidade do ambiente operacional. Foi assim que o general brasileiro, Carlos Alberto Santos Cruz, respondeu diante da publicação de uma avaliação interna realizada pelas Nações Unidas sobre a operação de paz que ele comandou na República Democrática do Congo.

Na semana passada, a coluna publicou o resultado de uma auditoria em que se concluía que as forças de paz da ONU no país africano sofreram deficiências consideradas como "críticas".

O exame da operação se refere ao período entre janeiro de 2015 e setembro de 2016. Em mais da metade do tempo avaliado, as forças eram comandadas pelo general brasileiro. Ele ocupou o posto de 2013 a dezembro de 2015, num momento que foi considerado como chave para o conflito.

A auditoria realizada pelo Escritório de Serviços de Supervisão Interna da ONU apontava a falta de levantamentos sobre as operações militares, e ainda o desrespeito à norma que exigia que autoridades civis e de direitos humanos fossem consultadas antes de operações.

Não existia também, segundo as Nações Unidas, a prevenção sistemática de possíveis danos colaterais. Além disso, a frequência de patrulhamento estava abaixo das metas estabelecidas.

Uma semana antes da publicação da reportagem, a coluna procurou o general, que indicou desconhecer a existência da auditoria. Os documentos foram, então, repassados ao militar, com perguntas relacionadas a cada uma das conclusões do informe.

Ele, porém, não deu uma resposta durante os dias que se seguiram, apesar dos contatos mantidos com a reportagem. Após a publicação do material, o militar enviou seus comentários.

De acordo com o general, "a reportagem do UOL, se referindo a mim e à MONUSCO, tem um título sensacionalista que fica por conta da liberdade de expressão do veículo de comunicação".

"A reportagem se baseia num relatório feito entre agosto e outubro de 2016 e que se refere a 2015 e 2016", disse. "Como eu encerrei meu tempo na Missão em dezembro de 2015, não tive oportunidade de ser entrevistado", esclareceu.

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"O relatório trata de avaliação de processos. Não é um relatório de dados objetivos - quem, o que, quando, como e por que - e nem de resultados", indicou.

"Por ser um relatório de processos, ele se baseia sob modelo teórico e em aspectos doutrinários, como é normal, e carece de objetividade e de praticidade", explicou.

"Análises teóricas são feitas, normalmente, longe da realidade dos acontecimentos no tempo e no espaço. Os relatórios são importantes para aprimorar processos, mas não tratam da realidade objetiva do ambiente operacional, do momento, das relações pessoais, da urgência de decisões, das adaptações necessárias para responder à dinâmica da continuidade de operações de combate e até mesmo dos resultados obtidos", declarou.

General afirma ter dado ouvidos aos direitos humanos

Santos Cruz ainda indicou que, durante seu comando, o envolvimento de autoridades civis e de direitos humanos na preparação das operações militares existia. "No meu tempo, nunca foram excluídos. Pelo contrário", garantiu.

Ao ser questionado sobre a declaração da ONU sobre a falta de identificação prévia de possíveis danos colaterais nessas operações, ele pediu esclarecimentos. "Favor definir quais as operações em que houveram danos colaterais, quais e quando", escreveu. Na auditoria da ONU, não existem essas informações.

Sobre o patrulhamento abaixo das metas estabelecidas, ele rebateu. "Quando isso aconteceu e aonde? A missão tinha bases operacionais em cerca de 80 diferentes locais. Quando o levantamento foi feito, as tropas estavam distribuídas em 62 locais diferentes com realidades distintas", disse.

Para ele, medida do possível, a operação cumpriu sua missão de proteger a população civil. "É impossível proteger a todos, todo o tempo, em todos os lugares", disse. "Os maiores desafios são a dimensão do país, a fraca presença governamental e o grande número de grupos armados", explicou.

Questionado sobre o fato de a missão ter aceito as recomendações da auditoria, ele comentou. "Isso não é questão de aceitar ou não. Isso é o que se faz regularmente. Na minha nota eu comento como é feita uma avaliação de processo. É útil, mas não é objetiva na prática para indicar quando, o que, como, quem e quando", completou.

Jamil Chade