PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Jamil Chade


Brasil retira diplomatas da Venezuela

Reunião entre o presidente Bolsonaro, o chanceler Ernesto Araújo e os representantes de Guaidó, Maria Teresa Belandria e Tomás Silva (à direita) - Reprodução/Instagram
Reunião entre o presidente Bolsonaro, o chanceler Ernesto Araújo e os representantes de Guaidó, Maria Teresa Belandria e Tomás Silva (à direita) Imagem: Reprodução/Instagram
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

05/03/2020 14h35

Se recusando a dar explicações, o Itamaraty remove quatro funcionários de postos diplomáticos na Venezuela, num sinal que começa a ser interpretado dentro do próprio Ministério das Relações Exteriores como uma eventual preparação do Brasil para diminuir de forma drástica as atividades da embaixada e consulado no país vizinho.

O movimento, segundo fontes no Itamaraty indicaram, ocorreria de forma sincronizada. A ideia era de que, em Brasília, houvesse uma retirada de diplomatas que representam Nícolas Maduro no Brasil. Não há, porém, fechamento de postos por enquanto.

A chancelaria venezuelana negou a informação e garantiu que nada muda em sua representação em Brasília. Os diplomatas de Maduro, segundo a alta cúpula venezuelana, continua no Brasil.

Desde janeiro de 2019, o governo brasileiro não reconhece Maduro como presidente legítimo.

Nesta quinta-feira, o governo publicou no Diário Oficial da União uma portaria que remove os oficiais da Embaixada e Consulado em Caracas, do Consulado em Ciudad Guyana, e de um outro vice-consulado. No total, quatro diplomatas estão já sendo removido, quase todos eles em postos de chefia. Outros, de um escalão mais baixo, permanecem no país vizinho.

O Brasil já estava sem embaixador, deixando a representação política em um patamar inferior. Agora, até mesmo essa pessoa está sendo removida. Apenas um diplomata agora permanece na embaixada do Brasil em Caracas, um conselheiro. Já no consulado não há mais nenhum diplomata e o local opera apenas com funcionários locais. Oficiais de chancelaria também já foram removidos.

Dentro do Itamaraty, o gesto chamou a atenção de diplomatas que suspeitam das intenções da chefia da chancelaria. A prática de anunciar a retirada de um diplomata raramente é feita em bloco, com vários nomes publicados no mesmo dia e do mesmo local.

Um fechamento dos postos diplomáticos seria inédito na região. Mas, acima de tudo, teria um impacto para os brasileiros que vivem na Venezuela.

A opção escolhida é a de manter algum funcionário no consulado, apenas para prestar serviços de passaporte aos brasileiros no local.

Reciprocidade e expulsão

No ano passado, representantes de Juan Guaidó entraram na embaixada da Venezuela em Brasília. Documentos obtidos pela coluna indicaram que o Itamaraty não viu o ato como uma "invasão".

Tomás Silva, um dos venezuelanos que entrou na embaixada, publicou um vídeo instantes depois que foi, quase imediatamente, compartilhado pelo deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro. "Bem tranquilo diplomata Tomás Silva manda recado após entrar na embaixada da Venezuela no Brasil", escreveu o deputado, que é ainda o presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados.

A coluna ainda revelou como Silva esteve com altas autoridades brasileiras e visitou o Itamaraty e o Congresso Nacional em diversas ocasiões.

Procurado, o Itamaraty indicou que não comentaria a decisão de retirar seus funcionários.

Jamil Chade