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Jamil Chade


Diretor da OMS responde a Bolsonaro: "UTIs estão lotadas em muitos países"

Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante entrevista coletiva em Genebra -
Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante entrevista coletiva em Genebra
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

25/03/2020 11h53

Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, mandou uma resposta direta ao presidente Jair Bolsonaro, que insistiu em minimizar o coronavírus e chegou a classificá-lo como uma "gripezinha" ou "histeria".

Questionado pela coluna sobre qual mensagem ele passaria para o presidente brasileiro, o africano que lidera a agência de Saúde foi claro em contestar sua posição e desautorizar Bolsonaro.

"Em muitos países, as UTIs estão lotadas e essa é uma doença muito séria", declarou Tedros.

O tom usado pelo presidente Jair Bolsonaro em sua mensagem ao país na noite de terça-feira sobre o coronavírus deixou entidades internacionais perplexas e preocupadas com o destino de milhares de pessoas.

Em sua fala, Bolsonaro questionou alguns dos pilares martelados desde janeiro pela OMS para tentar frear a pandemia. Ele colocou em xeque o distanciamento social e o fechamento de escolas. Mas, acima de tudo, deu a impressão de que a doença apenas atinge os mais velhos, algo que a OMS tem alertado que não é o caso..

Responsabilidade Política e Salvar Vidas

Horas depois da primeira declaração, Tedros Adhanom Ghebreyesus voltou a responder a uma pergunta da coluna e apelou para que a liderança política assuma suas responsabilidades, principalmente para mobilizar a sociedade.

Para a OMS, o momento é de focar as ações dos governos em "salvar vidas".

O chefe da agência voltou a insistir que o "vírus é muito perigoso" e que mais de 16 mil pessoas já morreram. "Já falamos disso há mais de 2 meses. Esse é o inimigo público número 1", disse. "E falamos que a janela estava fechando. O tempo de agir era há um mês. Mas temos uma segunda chance (com as quarentenas)", disse.

"Há uma segunda oportunidade, que não podemos desperdiçar. E fazer tudo para controlar o vírus", insistiu. "A responsabilidade é de todos, especialmente a liderança política é chave", afirmou.

"O governo inteiro deve estar envolvido. O vírus não vai ser parado apenas pelo setor de saúde. Todos os lados devem estar envolvidos", disse.

Apesar dos recados para Bolsonaro, Tedros elogiou os trabalhos de Donald Trump. "Precisamos de compromisso politico e do mais alto nível", disse. "Esse tipo de liderança de pode trazer mudanças e parar a pandemia", insistiu.

Michael Ryan, chefe de operações da OMS, indicou que confia que todos os governos tomem as medidas apropriadas e indicou que os riscos para a saúde pública são "reais". Ele apontou que entende os dilemas que países em desenvolvimento enfrentam. "Mas precisamos focar primeiro em parar a doença e salvar vidas", disse.

"Temos uma janela curta. O que governos façam ontem, hoje e amanhã vão ser decisivos", afirmou Ryan. Para a OMS, a quarentena estabelecida pela China de certa forma funcionou e só agora estão retirando as restrições.

Distanciamento Social

Ao contrário do que disse Bolsonaro, Tedros indicou que medidas de distanciamento social são "importantes". Mas, por si só, elas não resolvem. Para ele, governos precisam pensar o que vão fazer durante o período de confinamento de cidadãos.

"Superamos muitas pandemias e crises antes. Vamos superar essa também. A questão é qual o preço que vamos pagar. Já perdemos 16 mil vidas. Vamos perder mais. Tudo vai depender das decisões que tomamos", disse Tedros.

Segundo ele, as quarentenas servem para desacelerar o ritmo da doença e vêm com custos "sem precedentes" para a sociedade e economia. Mas, acima de tudo para comprar tempo e reduzir a pressão sobre os sistemas de saúde.

Para a OMS, seis medidas precisam ocorrer enquanto a quarentena está em vigor. Elas incluem a expansão e treinamento dos sistemas de saúde, criar um sistema capaz de encontrar todos os casos suspeitos, aumentar a produção de testes, identificar locais para isolar pacientes, desenvolver um plano para rastrear pessoas com contato com doentes e focar a atenção inteira do governo.

Um elemento central é ainda a confiança entre os principais atores da comunidade. "Isso vale para todos. Em alguns países, os casos saltaram e o sistema não estava pronto", lembrou. "Precisamos ser muito sérios neste momento", afirmou.

"O objetivo é garantir ações para salvar vidas", disse Tedros, que pediu que as medidas sejam agressivas. "Essa é uma segunda janela de oportunidade. A questão é como usa-la", disse.

Caso as medidas não sejam aplicadas durante a quarentena, o risco é de que governos tenham de restabelecer os confinamentos de suas populações, depois de poucas semanas de um eventual relaxamento das regras.

Há poucas semanas, Tedros chegou a dizer que vender tal percepção de que se trata de um doença que mata apenas idosos - mesmo que fosse verdade - representa a "falência moral" da sociedade.

Numa outra coletiva, o africano foi enfático: "jovens: vocês não são invencíveis".

Nesta quarta-feira, coube a uma das diretoras técnicas da OMS, Maria van Kerkhove, reforçar a ideia de que crianças também são "vulneráveis" e que casos sérios foram registrados entre jovens.

Para fontes nos organismos internacionais, o discurso de Bolsonaro é "perigoso", já que incita os mais jovens a desrespeitar medidas de distanciamento social e cuidados básicos.

Mas é o tom de Bolsonaro minimizando a doença - a chamando de histeria e "gripezinha" - que gerou enorme preocupação entre os técnicos internacionais nesta quarta-feira.

Consultados pela coluna, vários deles indicaram que o temor é de que, ao mandar essa mensagem, Bolsonaro mina a tentativa da OMS de conscientizar milhões de pessoas sobre a necessidade de tratar a doença como algo sério. Por semanas, a direção da agência vem tentando convencer políticos pelo mundo de que a situação é grave. "Acordem", chegou a dizer o chefe de operações da entidade, Michael Ryan, aos governos.

Denúncia

A OMS ainda recebeu nesta quarta-feira uma denúncia apresentada pela bancada do PSOL na Câmara dos Deputados contra Bolsonaro. O grupo de deputados já havia levado a queixa contra o governo às entidades internacionais há cerca de dez dias. Agora, a nova denúncia deve ser anexada à queixa inicial.

Em uma carta enviada ao diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, e ao Relator Especial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o direito a saúde, Dainius Puras, os parlamentares pedem ajuda internacional para cobrar respostas do governo brasileiro e que a atitude do presidente seja desautorizada publicamente.

O texto é assinado por deputadas como Fernanda Melchionna, Luiza Erundina, Glauber Braga, David Miranda, Ivan Valente e Marcelo Freixo.

"Enquanto governadores e autoridades locais estão implementando medidas para impedir a disseminação do vírus, o Sr. Bolsonaro decidiu atacá-los, argumentando que eles prejudicariam a economia. Ontem, em discurso transmitido nacionalmente, o presidente do Brasil foi contra as recomendações das autoridades sanitárias internacionais e nacionais e atacou as medidas de distância social e quarentena", apontaram.

Uma cópia do discurso original em português e uma tradução em inglês foi submetida a Tedros e ao relator da ONU.

"No seu discurso de ontem, o Sr. Bolsonaro apelou literalmente à população para voltar às suas vidas normais em prol da economia e questionou a gravidade da pandemia do coronavírus, sugerindo que o isolamento deveria acontecer apenas para as pessoas mais velhas. Ele também usou o seu discurso para acusar, mais uma vez, a imprensa brasileira e as autoridades locais de disseminar o pavor e a histeria", indicaram.

"É incerto porque o Sr. Bolsonaro está desafiando a ciência, as autoridades sanitárias e toda a comunidade internacional desta forma. No entanto, é certo que a forma como ele quer conduzir o país através desta pandemia ameaça milhões de vidas brasileiras e o esforço internacional para deter este vírus", alertaram.

Os deputados querem que a OMS e o relator da ONU exijam "explicações da Missão Permanente do Brasil junto à ONU em Genebra e do Ministério da Saúde do Brasil", e que desaprovem publicamente as ações e declarações do presidente.

Modelos

Além de repetir em grande parte o posicionamento do governo dos EUA, a estratégia de Bolsonaro só encontrou eco nos primeiros dias da crise no Reino Unido. Boris Johnson, o primeiro-ministro, tentou adotar uma estratégia de ação pontual. Mas, pressionado pelos números de mortes e criticado pela atitude, acabou desistindo do caminho adotado e ordenou uma quarentena em todo o país.

O Japão foi citado pelo governo brasileiro como um país que não adotou o distanciamento social. Mas o país ampliou de forma considerável sua capacidade do sistema de saúde e promoveu uma estratégia para testar de forma ampla todos aqueles com algum sintoma.

Também pesou na resposta de Tóquio o hábito de parte de sua população de levar máscaras, além de um compromisso político do governo em mostrar ao mundo que estava pronto para receber os Jogos Olímpicos, o que acabou cancelado.

Outros exemplos de países onde a quarentena não foi adotada dificilmente poderiam ser comparados ao caso do Brasil.

No caso da Coreia do Sul, apresentado como exemplo de sucesso, o governo optou por uma campanha em massa para testar os cidadãos. Aqueles com a doença foram isolados e tratados. Além disso, todos os contatos da pessoa foram rastreados.

Outro exemplo frequentemente citado é o do Cingapura. Mas, neste caso, o país se limita a uma cidade, o que facilita o controle e a identificação de cada uma das pessoas atingidas.

Jamil Chade