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Jamil Chade


Cautelosa, OMS discute como voltar à normalidade sem nova onda de contágio

Plaza Mayor, marco de Madri, vazia após surto de coronavírus na Espanha - Sergio Perez/Reuters
Plaza Mayor, marco de Madri, vazia após surto de coronavírus na Espanha Imagem: Sergio Perez/Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

06/04/2020 04h00

Resumo da notícia

  • OMS teme que governos antecipem fim de quarentenas e gerem novo surto
  • Queda no número de casos pode causar relaxamento no isolamento social
  • Para a organização, países podem agir por pressão de setores da economia
  • Retomada não ocorreria antes do início de maio para os países europeus

Com os números de mortes dando os primeiros sinais de quedas na Espanha, Itália, França e Bélgica, e com governos apontando para a possibilidade de retomada de suas economias, a OMS (Organização Mundial da Saúde) apela à prudência e inicia nos bastidores trabalhos com técnicos de todo o mundo para estipular uma estratégia para a transição de um cenário de quarentenas para uma situação de normalidade.

Cautelosa, porém, a entidade teme que os primeiros números positivos levem governos, pressionados por atores econômicos, a acelerar a retirada de medidas de distanciamento social, com um resultado catastrófico e nova onda da explosão de casos.

Pensando nessa possibilidade, a OMS iniciou trabalhos para determinar em quais circunstâncias e em que ponto um governo deveria falar abertamente sobre um cenário de retirada de restrições. A avaliação é de que qualquer plano neste sentido deve ocorrer de forma segura e gradual.

Ao mesmo tempo, o planejamento propõe concentrar esforços para que países possam melhorar seus serviços de saúde.

Na Itália, o governo estipulou até 2 de maio o prazo de confinamento para sua população. No restante da Europa, projeções similares também foram estabelecidas. Mas existem governos que já indicam que poderiam começar a pensar num plano de saída para o atual estágio. Na Áustria, o governo indicou na manhã desta segunda-feira que vai permitir a abertura de pequenas lojas a partir do dia 14 de abril. A transição será gradual. Restaurantes poderão voltar a funcionar em maio. Mas eventos com grandes aglomerações de pessoas seriam autorizados apenas a partir de final de junho.

A cúpula da OMS não esconde sua preocupação de que o fim das quarentenas seja decretado de forma prematura ou sem uma estrutura necessária para enfrentar os desafios que virão.

Uma primeira reunião ocorreu na semana passada, entre "líderes globais de saúde". O grupo era composto pelo Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos, a brasileira Fiocruz e uma dezena de instituições de ponta de todo o mundo.

Na pauta estava o debate sobre como elaborar uma estratégia para evitar que, depois de decretar o fim de uma quarentena, o surto volte a surgir. Isso implicaria na perda de meses de fechamento da economia, incertezas e a volta da crise sanitária. Para os especialistas, tal cenário poderia levar a um mergulho ainda mais profundo das economias, já com amplas perdas.

Plano visa a ter melhores sistemas de saúde ao fim da crise

Para a OMS e especialistas, a quarentena é uma espécie de tempo que países compram diante da pandemia. Mas a questão é o que fazer com tal "tempo extra". Na avaliação da entidade, as restrições desaceleram o contágio e, assim, reduzem a pressão sobre os serviços de saúde.

A coluna apurou que o trabalho consistirá em garantir que, durante o próximo mês de quarentena em diversos locais do mundo, o tempo seja usado para fortalecer os sistemas de saúde e criar um plano sólido para garantir o teste de todas as pessoas com sintomas e a capacidade de isolar os casos positivos.

A perspectiva é de que o vírus não irá simplesmente desaparecer. Mas que países que adotarem medidas agressivas para ampliar sua capacidade de UTI, testes e isolamento, terão maiores chances de começar a pensar no período pós-quarentena, possivelmente a partir de maio.

A meta é ambiciosa: sair do período de quarentenas com sistemas de saúde mais sólidos financeiramente. E não com a atual situação de colapso e nem com os serviços públicos que existiam antes.

A questão é como implementar tal medida em países mais pobres. Entre as propostas está um compromisso global de que credores suspendam a cobrança de dívidas externas, como forma de garantir que novos recursos possam ser destinados para os sistemas de saúde.

Para o diretor de operações da OMS, Michael Ryan, o mundo precisa "ter cuidado na saída (dessas quarentenas)". "Ao desenhar as estratégias de transição para que a economia volte ao normal, o que precisamos garantir é que haja uma arquitetura dos sistemas de saúde, controle e fortalecer os serviços públicos", defendeu.

Segundo ele, governos terão de decidir se querem conviver com o vírus e reabrir suas economias. Mas, se essa for a escolha, terão de garantir a existência de sólidas redes de apoio e sistemas de saúde. Neste cenário, haveria um "vírus mais controlado".

Caso não haja essa preparação e medidas, o risco é de que governos tenham de voltar a aplicar quarentenas. "Se estivermos em controle (do vírus), podemos proteger nossas economias. As quarentenas são tempos preciosos para estabelecer essa arquitetura, testes e construir resposta. Se fizermos isso, podemos fazer transição para uma vida que seja mais engajada, com mais saúde e justiça social", completou.

Jamil Chade