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Jamil Chade

Gasto com pessoal militar teve maior alta em uma década, diz levantamento

Oito dos 22 ministros de Bolsonaro são militares, a maior participação das Forças Armadas em um governo desde a redemocratização - Equipe de transição/Rafael Carvalho
Oito dos 22 ministros de Bolsonaro são militares, a maior participação das Forças Armadas em um governo desde a redemocratização Imagem: Equipe de transição/Rafael Carvalho
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

27/04/2020 03h50

Resumo da notícia

  • Despesas militares no mundo aumentaram em 2019, atingindo maior valor desde final da Guerra Fria
  • EUA, China, Índia, Rússia e Arábia Saudita representam mais de 60% de todos os gastos mundiais com forças armadas

O governo de Jair Bolsonaro promoveu o maior aumento de despesas com pessoal no setor militar em mais de uma década no Brasil. A informação está sendo publicada nesta segunda-feira pelo Instituto Internacional de Pesquisas da Paz de Estocolmo (Sipri, sigla em inglês).

De acordo com a entidade que serve de referência mundial para o levantamento de gastos militares, o Brasil representa hoje 51% de todo a despesa com as forças armadas na América do Sul e tem o 11o maior orçamento do mundo.

Mas, entre 2018 e 2019, o total de gastos - incluindo compra de equipamento, armamento e outros itens - caiu no Brasil.

"As despesas militares brasileiras caíram ligeiramente em 2019, em 0,5%, após dois anos consecutivos de crescimento, para atingir US$ 26,9 bilhões", afirma o levantamento.

"Embora o nível global das despesas militares tenha permanecido relativamente inalterado em 2019, verificaram-se alterações significativas nas categorias de despesas. Os gastos com pessoal, por exemplo, apresentaram o maior aumento anual em mais de uma década, como parte de um plano para aumentar os salários dos militares", indicou o estudo, sem dar detalhes.

Volta aos níveis da Guerra Fria

O levantamento, publicado anualmente, revela como os gastos militares atingiram US$ 1,9 trilhão em 2019 em todo o mundo, um aumento de 3,6% em comparação a 2018 e o maior salto anual desde 2010.

O volume é maior desde 1988, quando a Guerra Fria já apontava ao seu final. EUA, China, Índia, Rússia e Arábia Saudita foram os que mais investiram, somando 62% de todas as despesas mundiais no setor. Essa é ainda a primeira vez que dois países asiáticos ocupam as cinco primeiras colocações.

Hoje, os gastos militares representam 2,2% do PIB mundial, ou US$ 249,00 por pessoa. Em comparação a 2010, o volume é 7,2% superior.

Nan Tian, pesquisador do SIPRI, acredita que a taxa de investimentos no setor militar é o maior desde a crise de 2008.

Sob Donald Trump, os gastos com as Forças Armadas aumentou em 5,3% em 2019, para US$ 732 bilhões e representam hoje 38% de tudo o que o mundo gasta. Só o aumento em um ano foi equivalente a tudo o que a Alemanha gasta em um ano.

"O recente crescimento das despesas militares dos EUA baseia-se em grande parte na percepção de um regresso à concorrência entre as grandes potências", afirma Pieter Wezeman, pesquisador do SIPRI.

De fato, em 2019, a China e a Índia foram, respectivamente, o segundo e terceiro maiores gastadores militares do mundo. A despesa militar da China atingiu US$ 261 bilhões, um aumento de 5,1% em comparação com 2018, enquanto a da Índia cresceu 6,8%, para US$ 71 bilhões.

"As tensões e rivalidades da Índia com o Paquistão e a China estão entre os principais motores do aumento das suas despesas militares", afirma Siemon T. Wezeman, do SIPRI.

Para além da China e da Índia, o Japão (47,6 bilhões de dólares) e a Coreia do Sul (43,9 bilhões de dólares) foram os maiores gastadores militares na Ásia. As despesas militares na região têm aumentado todos os anos desde, pelo menos, 1989.

Se o salto foi importante, nada se compara ao aumento dos gastos na Alemanha. As despesas militares de Berlim aumentaram 10% em 2019, para 49,3 bilhões de dólares. "O crescimento das despesas militares alemãs pode ser explicado em parte pela percepção de uma ameaça crescente por parte da Rússia, partilhada por muitos Estados membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO)", diz Diego Lopes da Silva, pesquisador do SIPRI. "Ao mesmo tempo, porém, as despesas militares da França e do Reino Unido permaneceram relativamente estáveis", indicou.

O total das despesas militares dos 29 Estados membros da NATO foi de um trilhão de dólares em 2019.

Em 2019, a Rússia foi o quarto maior gastador do mundo e aumentou as suas despesas militares em 4,5%, para 65,1 bilhões de dólares. "Com 3,9% do seu PIB, a despesa militar da Rússia foi das mais elevadas da Europa em 2019", afirma Alexandra Kuimova, pesquisadora do SIPRI.