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Jamil Chade

Tedros rebate Bolsonaro sobre covid-19: quem ouviu OMS vive melhor situação

Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante entrevista coletiva em Genebra - Reprodução
Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante entrevista coletiva em Genebra Imagem: Reprodução
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

27/04/2020 12h58Atualizada em 27/04/2020 19h17

Tedros Gebreysus, diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), alerta que, apesar da queda nos números do coronavírus na Europa, a entidade estima que existe um fenômeno importante de subnotificações na América Latina e em outras partes do mundo.

Segundo ele, a pandemia está "longe de terminar" e a falta de testes em diferentes regiões do mundo é um motivo de preocupação. "Temos um longo caminho diante de nós", lamentou.

O diretor rebateu as críticas de Jair Bolsonaro, presidente brasileiro que insinuou na semana passada que não seguiria as recomendações da OMS por Tedros não ser um médico. De fato, o diretor é biólogo. Mas com mestrado e doutorado em saúde pública, além de ter sido ministro da Saúde e contar com dezenas de especialistas ao seu lado para formular as recomendações da entidade.

Ao ser questionado pelo UOL sobre os comentários do presidente brasileiro, o etíope evitou citar o nome do país. Mas indicou que quem seguiu os conselhos da OMS está em uma melhor situação hoje, em comparação com aqueles que não escutaram.

Na OMS, só podemos dar conselhos. Não temos mandato para impor nada. Cabe a cada país aceitar ou não. Mas o que garantimos é que damos nossas orientações com base nas melhores evidências e ciência. No dia 30 de janeiro, declaramos emergência global. Naquele momento, só existiam 82 casos fora da China. Nenhum caso na América Latina e nem na África. Nada. Apenas dez casos na Europa. Portanto, o mundo deveria ter escutado a OMS cuidadosamente. Isso é suficiente para entender a importância de escutar os conselhos da OMS. Quem seguiu está em melhor posição que outros. Isso é fato.

"Damos a melhor recomendação possível. Cabe aos países aceitar ou rejeitar. É responsabilidade de cada um. Espero que isso seja muito claro, para todos os países", afirmou. "Vamos continuar a dar orientações com base em ciência e evidências", disse.

Tedros ainda repetiu seu mantra: o apelo para que a liderança política de cada um dos países abandone as divisões partidárias e que formem uma "união nacional" para lutar contra o vírus. "O vírus não vai ser derrotado se não estivermos unidos", disse.

Diretor da OMS alerta sobre saída do isolamento

Michael Ryan, diretor de operações da OMS, citou um aumento de 50% ou 60% de casos registrados no Brasil em uma semana, enquanto a entidade continua a classificar a situação na região como "preocupante".

Segundo ele, o número de casos e mortes não pode ser o único critério para relaxar medidas de restrição. Ele pediu cautela no afrouxamento de medidas, sob o risco de que que a doença volte com uma força ainda maior.

Ryan sugeriu que a trajetória da pandemia deveria ser avaliada e que, em alguns casos, é normal que um país que tenha começado a aumentar o número de testes veja um salto nos casos. Agora, se com testes mantidos os números começarem a cair, esse seria o sinal que a OMS e governos deveriam avaliar. Também pesa o número de casos que uma pessoa contaminada poderia gerar.

Ryan garante que as quarentenas tiveram um resultado positivo em colocar pressão sobre o vírus. Mas um relaxamento acelerado poderia gerar uma explosão de novos casos. Ele admite que a OMS não sabe o que vai ocorrer quando as quarentenas começarem a ser retiradas de fato. "Ninguém sabe", insistiu. Mas deixou claro que eventos de massa e grandes aglomerações devem ser evitados.

Cada país deve avaliar seu contexto e equilibrar a renda das pessoas e a vida. Mas ao mesmo tempo, ao fazer o cálculo, governos devem avaliar se uma retirada muito cedo das restrições não acabariam gerando uma situação ainda pior.

Para ele, não existem respostas fáceis. "O que queremos ver é passo a passo, com base em evidências e que permita um país se mover para uma nova forma de viver. Mas sem fazer que isso cause mais danos", alertou.

"Não estamos perto do fim"

Maria van Kerkhove, diretora técnica da OMS, alerta que a retirada da quarentena não pode se basear apenas no número de casos e mortes. Governos precisam garantir que têm um sistema de identificação dos casos, leitos à disposição, escolas preparadas e uma população que entenda que a transição deve ocorrer de maneira "lenta e controlada".

"Isso vai levar algum tempo. Não estamos nem perto do fim", disse. "Precisamos estar mentalmente preparados e isso vai exigir ser mais paciente", alertou.

"A segunda onda da doença está em nossas mãos", completou Tedros. Na avaliação do diretor, o mundo "precisará de uma vacina para controlar a doença". Segundo ele, a demonstração de envolvimento de líderes internacionais, na semana passada, é um sinal de que tal iniciativa pode resultar em um processo mais rápido para garantir a chegada do produto no mercado.

Vacinação contra outras doenças

Durante a coletiva de imprensa nesta segunda-feira, a OMS ainda afirmou estar preocupada com o fato de que governos suspenderam ou cancelaram campanhas de imunização de crianças para mais de uma dezena de doenças.

Tedros alerta que, se na pandemia a taxa de morte de crianças é baixa, o risco é elevado se elas ficarem sem essas outras vacinas. Em certos países, foram os governos que optaram por adiar as campanhas, enquanto em outros locais são as próprias famílias que tem evitado os centros de saúde.

Hoje, 13% das crianças no mundo não são vacinadas, número que deve subir com a pandemia. Um dos impactos pode ser nas campanhas contra a poliomielite ou a varíola.

No total, a OMS estima que 21 países já registram a falta de vacinas por falta de produtos e outras 14 campanhas de vacinação foram adiadas. 13 milhões de crianças foram já afetadas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL