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Jamil Chade


Jamil Chade

ONU pede R$ 10 bi para desamparados, inclusive no Brasil, e prevê conflitos

Reuters
Imagem: Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

17/07/2020 14h26

Entidades internacionais fazem um apelo por mais de US$ 10 bilhões para dar uma resposta humanitária à crise causada pela covid-19. Fome, pobreza, desemprego e até mesmo conflitos armados poderiam "explodir" diante da pandemia se nada for feito.

No total, a ONU (Organização das Nações Unidas) e OMS (Organização Mundial da Saúde) estimam que 63 países precisam de um resgate, inclusive o Brasil, para ajudar os refugiados venezuelanos no país.

A constatação é de que, muito além de uma questão apenas sanitária, o vírus é hoje uma ameaça à segurança internacional. "O vírus continuará a ameaça o mundo politicamente e economicamente", alertou Michael Ryan, diretor de operações da OMS. "É uma questão de segurança global. O mundo precisa acordar para isso. Conflitos podem piorar", disse, citando a situação de vulnerabilidade de 2 bilhões de pessoas.

132 milhões de pessoas poderiam passar a viver uma situação de fome, somando-se aos já 690 milhões de famintos pelo mundo. "A pandemia está ensinando que a saúde não é um luxo. Mas sim a fundação de estabilidade econômica, social e política", disse Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.

Mas o custo de não fazer nada pode ser ainda mais alto. 640 milhões de pessoas poderiam ser infectadas, matando 1,6 milhão de pessoas vulneráveis em 32 países pobres. O custo médico de hospital para 2,2 milhões de pacientes chegaria a US$ 16,2 bilhões. Além disso, 2 milhões de mortes poderiam ocorrer por outras doenças por conta do impacto da pandemia nos serviços médicos.

O corte em orçamento na educação pode custar ainda US$ 10 trilhões para a humanidade, com uma suspensão de cinco meses de escolas. As crianças afetadas poderiam perder até US$ 16 mil em suas rendas ao longo de suas vidas.

O temor é de que, com cinco meses de escolas fechadas, 9,7 milhões de pessoas podem nunca mais voltar a ter uma educação.

Conflitos tem motivos, e são econômicos, diz chefe humanitário da ONU

Mark Lowcock, chefe humanitário da ONU, alertou que 13 novos conflitos armados poderiam surgir diante do desastre humanitário, o que levaria o mundo a viver um novo pico de tensão e guerras nos últimos 30 anos. Haveria ainda um salto no número de refugiados.

"Pressões econômicas e sociais e queda de serviços se somam à fragilidade de situações específicas de países", disse Lowcock. "O que vemos nos últimos dez anos é uma pressão acumulando e que está abrindo espaço para extremismo e violência", explicou.

"Conflitos têm motivos e são econômicos. Mas também sabemos que, uma vez iniciados, são difíceis de parar", afirmou.

Em março, a ONU fez um apelo global por US$ 2 bilhões para dar uma resposta à crise. Em maio, numa revisão do plano de resgate, elevou esse pedido para US$ 6,7 bilhões. Hoje, porém, o apelo é por US$ 10,3 bilhões.

250 milhões de pessoas precisam de ajuda, estima ONU

No começo do ano, a estimativa era de que a ONU teria de sair ao resgate de 110 milhões de pessoas. Hoje, a previsão é de 250 milhões de pessoas no mundo precisarão de ajuda.

O problema é que, até agora, países riscos destinaram apenas US$ 1,7 bilhão para o plano. "A resposta é inadequada e míope", alertou Lowcock.

O risco, sem dinheiro, é de que o mundo veja a proliferação de múltiplas crises e fomes. "Se não agirmos agora, impacto humanitário será ainda mais brutal e vamos desfazer o desenvolvimento de décadas, abalando gerações", disse.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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