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Jamil Chade

Mesmo com lockdown, concentração de gases na atmosfera bate novo recorde

David McNew/Getty Images
Imagem: David McNew/Getty Images
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

23/11/2020 07h24Atualizada em 23/11/2020 11h44

Nem mesmo o confinamento de bilhões de pessoas em 2020 e um desabamento da atividade industriais reverteu a situação da concentração de gases com efeito de estufa na atmosfera. Dados publicados nesta segunda-feira pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) revelam que a concentração bateu um novo recorde este ano.

Tal fenômeno vem aumentando as temperaturas e conduzindo a condições meteorológicas mais extremas, derretimento do gelo, subida do nível do mar e acidificação dos oceanos. A análise contém dados até o mês de novembro.

A agência constata que o lockdown, de fato, reduziu as emissões de muitos poluentes e gases com efeito de estufa, tais como o dióxido de carbono. Algumas das estimativas apontam para uma contração de até 17% no auge do lockdown.

"Mas qualquer impacto nas concentrações de CO2 — o resultado de emissões acumuladas passadas e atuais - não é de fato maior do que as flutuações anuais normais no ciclo do carbono", alerta.

Além disso, como a duração e a severidade das medidas de confinamento permanecem pouco claras, a agência alerta que a previsão da redução total anual das emissões ao longo de 2020 é "muito incerta".

"As estimativas preliminares indicam uma redução das emissões globais anuais entre 4,2% e 7,5%", indica. "À escala global, uma redução de emissões desta escala não provocará uma diminuição do CO2 atmosférico", apontou.

"O CO2 continuará a subir, embora a um ritmo ligeiramente reduzido (0,08-0,23 ppm por ano mais baixo). Isto enquadra-se bem na variabilidade natural interanual de 1 ppm. Isto significa que, a curto prazo, o impacto dos confinamentos [devido à] covid-19 não pode ser distinguido da variabilidade natural", conclui.

Concentração em alta

Segundo a OMM, os níveis de dióxido de carbono registraram outro surto de crescimento em 2019 e a média anual global ultrapassou a barreira emblemática de 410 partes por milhão. O aumento, porém, continuou em 2020.

"Desde 1990, houve um aumento de 45% na força total de radiação — o efeito de aquecimento sobre o clima — pelos gases com efeito de estufa de longa duração, sendo o CO2 responsável por quatro quintos deste", indicou a agência.

"O dióxido de carbono permanece na atmosfera durante séculos e no oceano durante ainda mais tempo. A última vez que a Terra experimentou uma concentração comparável de CO2 foi há 3-5 milhões de anos, quando a temperatura era 2-3°C mais quente e o nível do mar era 10-20 metros superior ao atual. Mas não havia 7,7 bilhões de habitantes", disse o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas.

Uma queda das emissões ocorreu. Mas esteve longe de ser suficiente para reverter a tendência dos últimos anos. "Ultrapassamos a fronteira global de 400 partes por milhão em 2015", insistiu. "E, apenas quatro anos mais tarde, ultrapassamos 410 ppm. Tal taxa de aumento nunca foi vista na história dos nossos registros. A queda nas emissões relacionada com o confinamento é apenas um pequeno sinal sonoro no gráfico a longo prazo. Precisamos de um achatamento sustentado da curva", disse Taalas.

"A pandemia da covid-19 não é uma solução para as alterações climáticas", alertou o cientista. "Contudo, ele nos proporciona uma plataforma para uma ação climática mais sustentada e ambiciosa para reduzir as emissões a zero através de uma transformação completa dos nossos sistemas industriais, energéticos e de transporte", defendeu.

"As mudanças necessárias são economicamente acessíveis e tecnicamente possíveis e afetariam a nossa vida cotidiana apenas marginalmente", avalia.

Para ele, é uma boa notícia que um número cada vez maior de países e empresas estejam se comprometendo com a neutralidade do carbono. "Não há tempo a perder", disse.

Neste final de semana, a cúpula do G-20 restabeleceu o tema climático em sua agenda, depois de três anos em que os encontros não resultavam numa declaração final que ia nesse sentido. Para muitos, a derrota de Donald Trump foi decisiva para modificar o ambiente das negociações.