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Jamil Chade

Bolsonaro vai "queimando filme" e reserva lugar no time de antidemocráticos

"Sem voto impresso em 2022, vamos ter problema pior que dos EUA", diz Bolsonaro - Pilar Olivares/Reuters
'Sem voto impresso em 2022, vamos ter problema pior que dos EUA', diz Bolsonaro Imagem: Pilar Olivares/Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

07/01/2021 14h23

Chocados diante das imagens no Capitólio, diplomatas ocidentais rapidamente se organizaram para que houvesse uma condenação de praticamente todos os países democráticos contra os atos em Washington. O entendimento era de que o que estava em jogo não era apenas a democracia nos Estados Unidos (EUA), mas a sobrevivência da credibilidade de um sistema.

A surpresa diante do que ocorria nos EUA logo ganhou um novo capítulo nos bastidores da diplomacia: a hesitação do maior país da América Latina, o Brasil, de também condenar de forma inequívoca os atos na capital americana.

O tom do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, de praticamente justificar a invasão deixou negociadores ocidentais preocupados com o posicionamento do governo brasileiro.

Horas depois de Bolsonaro alertar que o mesmo poderia ocorrer no Brasil, foi o chanceler Ernesto Araújo que reagiu nas redes sociais. Ainda que ele tenha condenado o ato, ele fez ponderações em defesa da base de Trump e das teses promovidas pela extrema-direita americana.

"Há que lamentar e condenar a invasão da sede do Congresso ocorrida nos EUA ontem", escreveu o ministro. "Há que investigar se houve participação de elementos infiltrados na invasão. Há que deplorar e investigar a morte de 4 pessoas incluindo uma manifestante atingida por um tiro dentro do Congresso", disse.

"Nada justifica uma invasão como a ocorrida ontem. Mas ao mesmo tempo nada justifica, numa democracia, o desrespeito ao povo por parte das instituições ou daqueles que as controlam", ponderou.

"O direito do povo de exigir o bom funcionamento de suas instituições é sagrado. Que os fatos de ontem em Washington não sirvam de pretexto, nos EUA ou em qualquer país, para colocar qualquer instituição acima do escrutínio popular", alertou o chanceler.

Dentro do Itamaraty, o comportamento criou um mal-estar. O temor é de que, ao voltar a questionar a vitória de Joe Biden e legitimar a ação dos manifestantes, Bolsonaro tenha colocado de vez a diplomacia brasileira numa situação incômoda e sem uma saída real.

"Temos de nos perguntar o que significa quando um país da dimensão do Brasil opta por hesitar em condenar a violência e não qualificar os acontecimentos como um ataque contra a democracia", afirmou um membro da Comissão Europeia, que pediu anonimato.

Para negociadores, a nova postura de Bolsonaro o afasta ainda mais do grupo de países democráticos, num gesto que poderia ter até mesmo consequência para sua sonhada adesão à OCDE.

Diplomatas brasileiros ainda temem que a reação do governo brasileiro gere uma resistência ainda maior por parte de Parlamentos europeus sobre a possibilidade de assinar um acordo comercial entre o Mercosul e a UE. Hoje, o impasse é acima de tudo ambiental. Mas a exigência de uma postura democrática também poderá pesar.

Embaixadores experientes relataram à coluna como a postura escolhida pelo governo diante da mais recente crise causada por Trump coloca o país numa situação ainda mais distante da principal obra que Biden prepara para 2021 em seu campo externo: a organização de uma Cúpula pela Democracia.

"Ficará registrado entre os membros do novo governo a atitude de Bolsonaro e isso vai pesar quando for debatido um eventual convite ao brasileiro para sentar à mesa das grandes democracias do mundo", afirmou um ex-ministro brasileiro, na condição de anonimato.