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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

OMS: Brasil só supera pandemia com "medidas sociais agressivas"

Enterro de vítima da covid-19 no cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus (AM), em 28 de outubro - Edmar Barros/Futura Press/Estadão Conteúdo
Enterro de vítima da covid-19 no cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus (AM), em 28 de outubro Imagem: Edmar Barros/Futura Press/Estadão Conteúdo
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

05/03/2021 14h04Atualizada em 05/03/2021 17h10

Resumo da notícia

  • Tedros alerta que país "precisa levar a serio a pandemia"
  • Brasil representa 30% de todas as novas contaminações no mundo
  • OMS acredita que nova variante está reinfectando pessoas e pede que transmissão seja estudada para preparar o restante dos países

O diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, abandona a diplomacia e manda um recado direto e claro ao governo brasileiro: se não houver medida de isolamento, o país não conseguirá reduzir o número de casos, mesmo com a vacina.

Em sua coletiva de imprensa nesta sexta-feira, o chefe da agência fez questão de alertar que, se o Brasil não levar a crise a sério, estará colocando em risco a região latino-americana e outras partes do mundo. "Isso não é apenas sobre o Brasil. Mas sobre a região e todos os demais", alertou Tedros. "Se o Brasil não agir de forma séria, vai continuar a afetar toda a vizinhança e demais países", disse.

Para a OMS, o momento é de apoiar os cientistas na região para entender os motivos da maior transmissão do vírus. Na avaliação da entidade, a variante P1 pode estar reinfectando pessoas que já foram contaminadas no passado e que, hoje, tem a imunidade reduzida. Não por acaso, entender o que ocorre no Brasil é considerado como fundamental para uma resposta global.

"Entender a dinâmica é importante para o resto do mundo. Precisamos entender de forma completa a transmissão ocorrendo no Brasil para saber a implicação disso tudo, tanto para a vacina como para medidas de controle. Estamos preocupados com a variante P1", disse Mike Ryan, diretor de operações da OMS.

Segundo ele, a mutação adicionou complexidade à crise brasileira. "Uma proporção (dos novos casos) é reinfeccção, provavelmente por queda de imunidade ou por variante estar evadindo a proteção imunológica", disse. Para ele, isso significa que o mundo terá de ser cuidadoso com as vacinas.

Auxílio emergencial terá de ser mantido

A agência também faz um alerta para que o governo brasileiro não abra mão neste momento de medidas de apoio financeiro, já que manter a sociedade parcialmente fechada apenas poderá ocorrer se houver uma ajuda real do estado.

Nas últimas semanas, o governo de Jair Bolsonaro insinuou que o auxílio emergencial estava chegando ao fim.

"A situação no Brasil é muito séria e estamos muito preocupados", disse Tedros. Segundo ele, o número de casos no país se multiplicou nos últimos meses. Em novembro, segundo ele, 114 mil novos casos eram registrados por semana. Na semana passada, foram 374 mil novos casos novos.

De acordo com Tedros, as mortes passaram de 2,5 mil na segunda semana de novembro para mais de 8 mil. "Os números estão constantemente aumentando", alertou.

De acordo com Tedros, enquanto o mundo viu uma queda na taxa de mortes, o Brasil continuou a ver os números subindo. "O Brasil precisa levar isso a sério", insistiu.

De acordo com ele, só haverá uma interrupção na crise brasileira se as autoridades entenderem que apenas esperar pelas vacinas não adiantará. Sem citar o nome do presidente Jair Bolsonaro, Tedros insistiu que o país precisa adotar "medidas sociais e medidas públicas agressivas". "Isso será crucial", afirmou. "Sem fazer algo para impactar a transmissão ou suprimir o vírus, não acho que teremos uma queda no número no Brasil", insistiu.

Nesta sexta-feira, os dados da OMS revelam que o Brasil representa 30% de todas as novas infecções no mundo em 24 horas.

Nesta semana, o governo Bolsonaro criticou medidas de isolamento social, questionou o uso da máscara e ignorou recomendações da OMS. Na semana passada, foi o chanceler Ernesto Araújo quem usou a tribuna da ONU para criticar as medidas de lockdown.

Locais com isolamento precisam de ajuda, não críticas

Mike Ryan também fez um apelo para uma ação no Brasil no sentido de impôr algum tipo de isolamento social. "Não é o momento de o Brasil ou qualquer país de relaxar", alertou. "As medidas sociais param todas as variantes", disse Ryan.

Na avaliação do irlandês, comunidades que aplicam medidas de isolamento precisam de "ajuda". "Não de críticas", alertou. Nesta semana, Bolsonaro atacou governos locais que implementaram medidas sociais.

Segundo o representante da OMS, o risco da notícia da vacina é de que sociedades "percam a concentração" e abandonem medidas de controle. O resultado, segundo ele, seria "desastroso".

"Se eu sei que vou tomar a vacina, não sou mais tão cuidadoso", especulou. "Mas não precisamos de muita gente pensando assim para dar oportunidade ao vírus para se espalhar", disse. "Pequenas mudanças no comportamento de muita gente pode gerar uma mudança enorme na epidemiologia do vírus", insistiu.

Em sua avaliação, vacinas por si só não irão dar resultado, principalmente diante do fato de que o abastecimento é ainda insuficiente.

"Há um aumento de casos em todo o Brasil", disse. Segundo ele, Manaus viu uma queda no número de pacientes em UTIs. "Mas o problema é ainda muito presente e, no Amazonas, estamos falando em ocupação de mais de 80% dos leitos de UTI", alertou.

"O que vimos é o mesmo padrão surgindo em outras partes do Brasil, especialmente no Nordeste e mesmo no Sul", explicou.

Maria Van Kerkhove, diretora técnica da OMS, também destaca como a maior circulação do vírus também amplia o impacto entre os mais jovens no Brasil. "Isso é algo que já vimos em outros países, com um aumento de hospitalização de jovens e mesmo nas UTIs", disse.

Para ela, a variante brasileira P1 é mais transmissível e, portanto, há um maior risco de números elevados de hospitalização. "Isso pode ter um impacto no sistema de saúde que, por consequência, pode ter um impacto no número de mortes", insistiu.

A diretora, porém, reforçou a tese de que a melhor forma de lidar com as variantes é a adoção de medidas sociais. "Elas funcionam contra as variantes", disse.

Já Ryan admite que, diante da dimensão do Brasil, a luta contra o vírus é complexa. "Cada uma das prefeituras está lutando", disse. "E todos precisam de nosso apoio. Mas a história do Brasil pode e vai se repetida em outro lugar se paramos de implementar medidas", disse.

Na avaliação de Ryan, governos apenas podem começar a pensar em abandonar lockdowns e medidas quando tiverem vacinas para as populações mais vulneráveis, sistema amplo de teste e monitoramento e medidas sociais.

"Estou muito preocupado mesmo, tanto com governos como com pessoas", disse. "Pensamos que superamos isso. Não superamos", completou.