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Jamil Chade

Brasil tem 20% das mortes no mundo e escolha na Saúde gera desconfiança

O novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, chega para reunião com Eduardo Pazuello no ministério da Saúde, em Brasília - EFE/Joédson Alves
O novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, chega para reunião com Eduardo Pazuello no ministério da Saúde, em Brasília Imagem: EFE/Joédson Alves
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

17/03/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Nos bastidores da OMS, opção do governo para o Ministério da Saúde frustrou esperanças de que mudança profunda poderia ocorrer
  • Defesa da máscara é considerada como positiva. Mas insuficiente diante de uma pandemia sem controle no Brasil
  • Recusa em considerar lockdown é interpretada por estrangeiros como resistência do governo em mudar de direção na pandemia
  • Enquanto número de mortes caiu em 3% no mundo, a alta no Brasil foi de 24% em sete dias

Na contramão do mundo, o Brasil somou mais de 20% das mortes pela covid-19 entre todos os países na última semana e vê a taxa de expansão de novos infectados aumentar num ritmo duas vezes superior à média mundial.

Enquanto isso, a chegada de um quarto ministro da Saúde no Brasil em um ano de pandemia foi classificada como "caótica" por parte da cúpula dos organismos internacionais, gerando desconfiança e deixando governos e entidades como a OMS com um "pé atrás" em relação ao que poderá ser a política sanitária brasileira nos próximos meses.

Dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) nesta quarta-feira revelam que o registro de mortes no planeta caiu em 3% na semana que terminou no dia 14 de março, somando 58 mil óbitos. No Brasil, porém, a curva vai no sentido contrário e, com 12,3 mil mortos no período avaliado, o país é líder mundial. O aumento foi de 24% entre os dias 7 e 14 de março.

As mortes no Brasil em sete dias representam o equivalente a todos os óbitos registrados nos EUA e México juntos. Os dois países estão na segunda e terceira colocação entre os locais com maior número de mortes, 8,3 mil e 4 mil, respectivamente. Contando apenas nas últimas 24 horas, o Brasil representa um terço de todas as mortes no mundo.

Os dados sequer incluem os recordes registrados nos últimos dias. Mas, no que se refere às novas contaminações, o Brasil também se consolidou como líder. Se no mundo os casos aumentaram em 10% e voltaram a assustar a OMS, com 3 milhões em uma semana, o país registrou uma aceleração duas vezes superior. No total, foram 494 mil novos contaminados no Brasil, um aumento de 20% em comparação à semana anterior.

"Continuidade não pode ser o caminho"

No centro das atenções, o Brasil também passou a ser acompanhado de perto por conta da troca no Ministério da Saúde. A notícia em si da queda de um militar - Eduardo Pazuello - e da escolha de um médico - Marcelo Queiroga - foi tida como um "passo positivo", inclusive por sua atitude de sair em defesa da ciência.

Mas a gestão da mudança, o tom de "dar continuidade" aos projetos fracassados e as exigências que foram feitas ao novo chefe da pasta da Saúde foram recebidas como um "sinal" da hesitação do governo federal em promover uma mudança radical na forma de lidar com a crise. Também existem dúvidas se o novo ministro terá de fato autonomia para modificar políticas que, comprovadamente, não deram resultados. "Continuidade não pode ser o caminho", insistiu um dos líderes na resposta contra a covid-19 na OMS.

Um dos pontos considerados como mais problemáticos na escolha do novo ministro seria seu compromisso de que não irá recorrer ou defender medidas de isolamento social, de confinamento, lockdown ou toque de recolher.

Na OMS, o recado é claro: essas medidas funcionam e permitiram que países desafogassem seus sistemas públicos de saúde. Na prática, de acordo com a entidade, a medida salva vidas.

Para a agência, o novo ministro precisa promover uma "mudança radical" na direção em que o país caminha e adotar medidas sociais agressivas, já que vacinar a população é apenas um projeto de médio a longo prazo.

Defender máscara é positivo. Mas não suficiente

Por enquanto, uma mudança identificada seria uma maior promoção do uso da máscara, objeto que chegou a ser alvo de teorias da conspiração por parte de grupos mais radicais que servem de base de apoio para Bolsonaro. O próprio presidente, seus ministros e filhos fizeram questão de serem vistos em público, sem a máscara.

Agora, Queiroga é mais enfático. "Conclamo a população que use máscara, lave as mãos, use álcool em gel. Eu estou repetindo, mas todos vocês sabem disso. Com essas medidas, podemos evitar ter que parar a economia do país", afirmou Queiroga nesta terça-feira. Em Genebra, a declaração foi bem recebida e, para observadores, lembrou o gesto de Joe Biden que, ao assumir a presidência, fez questão de despolitizar o uso da proteção.

Mas, na OMS, isso não vai ser suficiente diante de uma pandemia fora de controle no Brasil. O alerta é de que não basta recorrer a apenas um ou dois elementos do pacote para suprimir o vírus. Além de máscara e lavar as mãos, a estratégia envolve ampliar os testes, rastrear casos positivos e isolar pessoas de contato. Isso, segundo os técnicos, além da possibilidade de promover um lockdown, caso seja necessário.

Não por acaso, cinco fontes diferentes dentro dos organismos internacionais consultadas pela coluna reagiram com cautela diante do novo ministro. "Todos temos um pé atrás com o Brasil atualmente", admitiu um dos cientistas que faz parte dos grupos de aconselhamento na OMS.

Os episódios de ameaças contra a médica Ludhmila Hajjar, que chegou a ser considerada para o cargo, ainda chamaram a atenção fora do Brasil, num sinal do radicalismo que o debate científico hoje ganhou no país. "Isso é uma loucura. O inimigo é o vírus", comentou um experiente negociador na OMS.

Sem doses, Brasil não pode depender da vacina para frear mortes

Outro aspecto fundamental é a capacidade do Brasil em obter as vacinas de que necessita para ampliar a imunização de sua população. Para especialistas no fundo global de vacinas, a Gavi, o governo foi "lento" ao buscar acordos pelo mundo. Quando finalmente entendeu que estava desabastecido, fechou contratos que apenas ganharão em dimensão no segundo semestre do ano.

Na prática, isso significa que o novo ministro não poderá apenas depender das vacinas para controlar a doença, sob o risco de ver o número de mortes explodir nas próximas semanas.

Para a cúpula da OMS, liderada por Tedros Ghebreyesus e Mike Ryan, apenas uma "mudança de direção" no Brasil e "medidas sociais agressivas" darão resultados, num cenário de descontrole.

Na semana passada, em duas ocasiões, os diretores da agência declararam publicamente que o Brasil precisava agir de forma "séria" para frear o número de mortes.