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Jamil Chade

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Futebol mundial vive seu momento mais importante em décadas

Troféu da Liga dos Campeões da Europa durante sorteio da fase preliminar da edição 2020-21 - Harold Cunningham/UEFA
Troféu da Liga dos Campeões da Europa durante sorteio da fase preliminar da edição 2020-21 Imagem: Harold Cunningham/UEFA
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

19/04/2021 06h15

Ao romper com a Uefa e a anunciar um campeonato europeu separado, os grandes clubes do planeta colocaram sobre a mesa algo muito mais profundo que apenas uma disputa entre os caciques do futebol do Velho Continente pelo controle de bilhões de euros. Em jogo está o futuro do esporte, e em todo o mundo.

A ideia é a de criar um torneio paralelo, fechado e que, com o apoio de um banco que já prometeu US$ 4 bilhões para a iniciativa, rivalizaria com tudo, inclusive eventualmente com a Copa do Mundo.

Nada disso é novo. Há anos os grandes clubes europeus estão chantageando as entidades do esporte e dizendo: ou fazemos parte das decisões ou abandonamos vocês apenas como os nanicos do esporte. Aos poucos, Uefa, Fifa e tantos outros foram cedendo.

A própria Champions League passou a ser cada vez mais um evento que apenas alguns poucos podem cobiçar. A ideia de uma final ou mesmo uma semi-final com um time do Leste Europeu, ou mesmo Portugal, Holanda e tantos outros, ficou no passado. No lugar da Cortina de Ferro, a disparidade econômica criou uma nova fronteira, ainda mais intransponível.

Na Fifa, os clubes conseguiram estabelecer como lei a exigência de que sejam recompensados por ceder um jogador para uma seleção ao Mundial.

Agora, depois de um ano de pandemia e perdas acumuladas de 6 bilhões de euros, o projeto de um torneio bilionário, fechado e global ganhou força e adeptos. Global não por incluir times de outros continentes. Mas por reunir as maiores atrações do esporte, de todas as regiões.

Para algumas vozes pela Europa, a iniciativa da Super Liga, com os 20 maiores clubes, é apenas uma jogada dos dirigentes para conseguir ainda mais concessões da Uefa e de parceiros, reforçando sua posição de controle do destino do futebol.

Mas há quem tema que a ruptura seria mais profunda e abra uma caixa de Pandora. Na Uefa e nas sedes de clubes pequenos e intermediários da Europa, a iniciativa despertou perguntas e inquietações. Que papel terão os clubes médios e intermediários do continente no futuro do esporte? Todos sobreviverão?

Teremos diferentes divisões do esporte e, sobre elas, o futebol representado pelas grandes multinacionais do Real Madrid, Liverpool e Barcelona? Ou teremos diferentes divisões do futebol e, sobre elas, o entretenimento?

E se novas regras e novas tecnologias forem adotadas nesse torneio separado e que representa a maior ruptura na história recente da bola?

Nos bastidores, a guerra é intensa. Uefa e Fifa ameaçam suspender os clubes e impedir, inclusive, que participem de torneios nacionais. Os mais irônicos chegam a comentar que isso seria muito bem-vindo para muitos deles.

Do outro lado, em uma carta, os clubes alertaram que irão aos tribunais para garantir que o torneio ocorra, indicando que já contam com o poder financeiro para promover o terremoto.

A história do futebol no século 20 foi a da construção de uma estrutura que, hoje, nos parece óbvia: o monopólio da Fifa, sob o argumento de harmonizar as regras do jogo, seguida pelas confederações continentais, associações nacionais e, no pé da pirâmide, os clubes.

A globalização do futebol rompeu essa lógica e, 30 anos depois de seu início, revela que clubes globais querem assumir o destino do jogo.

Seja qual for o formato que o torneio ganhará ou se ele um dia se transformar em realidade, a disputa é por quem irá controlar o monopólio, quem dará as cartas, quem escolherá o local de uma final, o horário de uma partida, quem sobe e quem nunca cai.

A pandemia acelerou a redefinição do esporte e, independente do êxito ou não dos clubes "rebeldes", o século 21 começou para o futebol.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL