PUBLICIDADE
Topo

Jamil Chade

O amor: a vacina da resistência contra a era do ódio

Vencedora em primeiro lugar da categoria "Pós-Parto" - Veronika Richardson/Fox Valley Birth and Baby
Vencedora em primeiro lugar da categoria "Pós-Parto" Imagem: Veronika Richardson/Fox Valley Birth and Baby
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

12/06/2021 09h41

Resumo da notícia

  • Não estou propondo nem nova religião nem nova ideologia. Já temos bastante de ambas.
  • Num dia dos namorados em plena pandemia, o amor como prática revolucionária não pode ser só sentimento, mas plano de ação.

Vivemos uma era de tensão, de incerteza e onde o ódio é um instrumento que ganhou legitimidade para uma parcela da população e charlatões.

Mas a verdade é que recusar o amor no centro do debate nos custará caro demais. O preço pago por um mundo sem esse amor é insustentável. A insistência em recusar tal conceito dentro da política ou da comunidade não apenas nos torna insensíveis, mas também tenho a convicção de que nos impede de tomar as decisões mais sustentáveis. Sem amor, nossos esforços para nos liberarmos da opressão - seja ela qual for - estão fadados ao fracasso.

Claro, o amor também pode ser um instrumento de dominação e exclusão. Um ato de violência e de irracionalidade. Esse risco se corre quando essa paixão é canalizada apenas para criar e proteger uma comunidade de semelhantes. A história nos mostra que o amor à raça, à nacionalidade, a uma ideologia pode ter consequências devastadoras.

Mas não é a esse amor que eu me refiro. Foi construída a noção de que o conceito de amor se refere apenas ao casal, à família ou a um grupo. O que eu proponho é que o amor não seja um assunto privado, que não esteja acorrentado.

Confesso que nunca entendi por qual motivo Martin Luther King é sempre lembrado apenas por sua frase "Eu tive um sonho". Tão inspiradora como tal citação é esta: "Eu decidi amar."

Em 1967, ele escreveria algo tão poderoso quanto atual:

"Eu me preocupo por um mundo melhor. Estou preocupado com a justiça; estou preocupado com a fraternidade; estou preocupado com a verdade. E, quando alguém está preocupado com isso, nunca pode defender a violência. Pois através da violência você pode assassinar um assassino, mas não pode assassinar o assassinato. Através da violência você pode matar um mentiroso, mas não pode estabelecer a verdade. Através da violência você pode matar uma pessoa que promove o ódio, mas não pode matar o ódio através da violência. A escuridão não pode apagar a escuridão; só a luz pode fazer isso. E eu digo a você: eu também decidi ficar com o amor, pois sei que o amor é, em última análise, a única resposta aos problemas da humanidade."

Trinta anos antes, Freud escreveu O mal-estar na civilização. Não vou entrar aqui nos detalhes de sua obra nem ousar debater o sentido que ele pretendia passar. Mas quero reter apenas uma ideia que ele traz ali: o amor como uma energia das mais subversivas e poderosas. Certamente ele pode ser destrutivo. Mas e se ensinássemos a usar esse fenômeno de uma maneira revolucionária? E se a unidade não fosse nem o casal, nem a tribo, nem a raça, mas sim o sentimento universalista?

Já sabemos de uma forma explícita que a era do mundo infinito terminou. Se a emergência climática era um sinal claro disso, a pandemia veio confirmar nossa irrelevância, nossa vulnerabilidade. São fenômenos que zombam de nossas fronteiras, de nossas bandeiras.

Não estou propondo nem uma nova religião nem uma nova ideologia. Já temos bastante de ambas. O amor como prática revolucionária não é apenas sentimento, mas um plano de ação. Insisto: não acredito que isso seja algo inédito. O que é a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 senão uma carta de amor à humanidade?

A ideia é simples. Mas nos exige inverter uma lógica. Temos de abandonar a percepção que tanto ouvimos: que mundo deixaremos aos nossos filhos? Nada disso. O real desafio é nos fazermos uma pergunta muito mais desafiadora que essa: que geração vamos deixar ao mundo? Ou seja, que filhos estamos criando e de que forma eles vão assumir suas responsabilidades para não cometer os mesmos erros de outras gerações.

Eu vejo três princípios fundamentais na base dessa insurgência das consciências. O primeiro deles é o de educar com a finalidade de formar pessoas que se interessem por cuidar. Cuidar do cachorro, do irmão, dos avós, do vizinho, de um desconhecido, de um estrangeiro, da cidade, do país e de seus bosques, do planeta e de suas maravilhas. Um sistema que incentive a trocar o ego pelo eco.

O segundo é transformar a educação numa eterna busca da tolerância. Entender o que várias culturas dizem, descobrir novos significados para gestos, compreender por qual motivo uma religião dita certos dogmas, conhecer a história. Isso passa necessariamente pela humildade, não por criar mais canais de YouTube. Exige uma educação multidisciplinar, jamais unidimensional.

Será essa tolerância que permitirá que um indivíduo se sinta seguro e confortável diante do outro, dificultando o ódio, o medo e, portanto, o tribalismo como opção.

E o terceiro princípio é incentivar novas formas de justiça. Não se trata de ensinar a entregar roupas usadas para instituições de caridade alguns dias antes do Natal. Mas ensinar a não se conformar, a se indignar, a acreditar que se pode mudar o mundo, a sair às ruas pela liberdade, a se mobilizar, a saber que uma pessoa que dorme numa praça significa um crime, que uma pessoa faminta não é uma fatalidade e que a morte de um desconhecido é a morte da humanidade.

O eixo, no fundo, sofre um abalo. Paradoxal, a unidade passa a ser a humanidade em sua diversidade. Cada um de nós se define como humano.

Mas, curiosamente, precisamos dos demais para comprovar que o somos. Ou seja, só existimos como força coletiva.

Quando Yuri Gagarin, em 1961, se tornou o primeiro homem a entrar em órbita, levava consigo o sonho e a loucura de séculos. Quando ele retornou, confessou que sua maior surpresa não foi ver a vastidão do universo, mas a beleza do planeta. Ele estava apaixonado pela Terra.

Ele não foi o único a entender que, ainda que sua missão fosse desbravar o cosmo, a maior descoberta que estava fazendo era de nossa própria casa, do "errante navegante". Com base nos relatos dos astronautas, anos mais tarde, o filósofo Frank White cunharia o termo "overview effect", uma reflexão sobre a visão do mundo de uma posição privilegiada e única.

Não estou sugerindo o fim do Estado-nação nem evocando John Lennon. Mas será que não existe nada maior? Será que nossa lealdade se limita a uma bandeira e a uma vida organizada na base de identidades construídas? O nacionalismo é o instrumento adequado? Será mesmo que nossa maior defesa como espécie é a fronteira? Ou seria ela nossa limitação?

Talvez o vírus invisível tenha nos dado uma última chance de despertar. Um último alerta antes de enfrentar um desafio existencial que nos é apresentado no século XXI. Se Gagarin foi ao espaço para entender que somos um só, agora foram o confinamento, o medo, o reconhecimento da vulnerabilidade que nos proporcionaram um daqueles momentos históricos de mudança cognitiva da consciência.

Feliz dia dos namorados a todos que optem por essa resistência.