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Jamil Chade

OMS insiste com Queiroga na necessidade de controlar transmissão da covid

27.mai.2020 - O diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Adhanom Ghebreyesus, em coletiva de imprensa sobre o coronavírus - Christopher Black/Organização Mundial da Saúde (OMS)/AFP
27.mai.2020 - O diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Adhanom Ghebreyesus, em coletiva de imprensa sobre o coronavírus Imagem: Christopher Black/Organização Mundial da Saúde (OMS)/AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

05/09/2021 12h02

Numa reunião mantida neste domingo, em Roma, o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, insistiu com o ministro Marcelo Queiroga na necessidade de um controle da transmissão da covid-19. O encontro ocorreu às margens da reunião ministerial do G-20.

Nas redes sociais, Tedros explicou que conversou com o representante brasileiro sobre o aumento da produção de vacinas no país e a possibilidade de um compartilhamento dessa fabricação com o restante da América Latina.

O chefe da OMS também indicou que falou sobre o variante delta, que já é preponderante em dezenas de países e assusta a comunidade internacional. Entre os temas, porém, está a "necessidade de controle da transmissão".

Para agência internacional, vacinas são fundamentais. Mas não podem ser as únicas armas e governos precisam manter medidas para o uso de máscaras, distanciamento social quando possível e outras iniciativas.

Por meses, as falas de Tedros foram manipuladas pelo Palácio do Planalto, enquanto o então chanceler Ernesto Araújo fez questão de usar reuniões para esvaziar o poder da OMS e questionar suas recomendações. Atitudes similares foram tomadas ainda pelo ex-ministro Eduardo Pazuello e pela base mais radical do bolsonarismo, que chegou a pressionar por um confronto maior entre Brasília e Genebra e mesmo uma ruptura, repetindo as ações de Donald Trump que deixou a OMS.

As chegadas de Carlos França ao Itamaraty e de Queiroga a Saúde reabriram espaço para um diálogo entre o governo e a OMS, ainda que fortes dúvidas persistam na cúpula da entidade sobre o próprio Jair Bolsonaro.

Queiroga, porém, é visto como uma "porta viável" de aproximação ao Brasil, um dos pontos ainda de preocupação da OMS.

Também pelas redes sociais, Queiroga respondeu ao diretor-geral da OMS e indicou que o "encontro produtivo" tinha sido pautado pelo "sucesso do programa brasileiro de vacinação e a expansão da capacidade de produção local".

Há sete dias, na única entrevista concedida a um meio brasileiro desde o início da pandemia, Tedros indicou que certos avanços no Brasil eram positivos. Mas alertou que não estava na hora de o país relaxar as medidas de controle. Questionado se o pior no Brasil havia sido superado e se era o momento de começar a retirar as medidas de controle, ele reagiu sem hesitar. "Não, não". "Não podemos baixar a guarda", disse.

Tedros falou com a reportagem às margens de um evento fechado em Genebra, organizado pelo Conselho Mundial de Igrejas e também com a presença de lideranças religiosas do mundo muçulmano e ex-ministros.

Segundo ele, a principal preocupação da OMS está associada com as mutações do vírus. "A variante delta é mais perigosa e, em muitos lugares, está assumindo o lugar do vírus", disse.

Mas o etíope apontou para o que acredita ser avanços no comportamento do Brasil diante da pandemia e ainda elogiou Marcelo Queiroga, ministro da Saúde. "Eu acho que ele está fazendo o seu melhor", disse.

"As coisas estão melhorando. Espero que o Brasil continue a pressionar na mesma direção", disse. Mas Tedros insiste que não há como declarar vitória. "Não é a hora de relaxar", repetiu. Questionado se achava o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) entendia isso, ele respondeu de forma positiva. "Sim, eles entendem", garantiu.

"Estamos engajados com eles e eles estão engajados com a OMS. Estamos trabalhando de forma muito próxima, numa interação muito regular", disse. Tedros, porém, admite que nem sempre foi assim.


Produção brasileira de vacinas é aposta

Na entrevista ao UOL, Tedros também insistiu que a solução passa por ampliar a produção de vacinas e "compartilhar mais". Nessa estratégia, uma das apostas é garantir uma maior produção de doses no Brasil, inclusive para iniciar exportações e fornecimento para a região latino-americana.

"Estamos colaborando [com o Brasil]", disse. Segundo ele, há um esforço para ampliar a produção da Fiocruz e do Instituto Butantan. Tedros ainda explicou que a mesma visão será usada numa operação em Bangladesh e na África do Sul. "Se cuidarmos mais do semelhante, isso terminará mais rápido", insistiu.

"Enquanto estamos lutando contra a pandemia neste momento, estamos debatendo como preparar Brasil para o futuro, especialmente na sua capacidade de produção de vacinas", explicou o etíope, que evitou dar a mão para a reportagem e manteve em todo o momento sua máscara.

"O Brasil pode ajudar a si mesmo e ajudar muitos países", disse. "O Brasil tem a capacidade e estamos falando com Fiocruz e Butantan, além de trabalhar com o Ministério da Saúde", explicou.