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Jamil Chade

No exterior, Bolsonaro é tratado de "eco de Chávez" e preocupação global

O presidente Jair Bolsonaro discursa em carro de som durante ato com pautas antidemocráticas na avenida Paulista - DEIVIDI CORREA/ESTADÃO CONTEÚDO
O presidente Jair Bolsonaro discursa em carro de som durante ato com pautas antidemocráticas na avenida Paulista Imagem: DEIVIDI CORREA/ESTADÃO CONTEÚDO
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

08/09/2021 10h12

Os ataques do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) contra a democracia deixaram apenas de ser um problema para os brasileiros e se transformaram em uma preocupação internacional. A análise é do americano Kenneth Roth, diretor-executivo da entidade Human Rights Watch, ex-procurador federal dos EUA e uma das vozes mais ativas no campo dos direitos humanos no mundo.

Um dia depois das ameaças feitas por Bolsonaro contra as instituições nacionais, Roth insistiu que o momento é de pressionar o governo. "Estamos muito preocupados com os ataques de Bolsonaro contra a democracia", disse o chefe de uma das principais entidades de direitos humanos no cenário internacional.

Roth considera que, nos atos de 7 de Setembro, Bolsonaro "repetiu" a cartilha de Donald Trump ao questionar sem base uma suposta fraude nas eleições, além de atacar jornalistas e sociedade civil.

"Temos fé na democracia brasileira", disse. "Mas Bolsonaro faz o que pode para minar essa democracia. É uma preocupação não apenas para os brasileiros. Mas para o resto do mundo e estamos acompanhando de muito perto o que está ocorrendo", afirmou.

Roth insiste, porém, que tem esperança de que a democracia brasileira vai resistir aos ataques por parte do presidente. "Temos confiança nas instituições brasileiras. Os controles funcionam, a imprensa fez seu trabalho, assim como existe uma sociedade civil sólida", disse. Mesmo assim, ele alerta que o momento é de "gerar pressão" sobre Bolsonaro.

Repercussão: "Ecos de Hugo Chávez"

Fontes diplomáticas confirmaram à coluna que o tom usado por Bolsonaro em seus discursos nos atos do 7 de setembro "assustaram", principalmente no que se refere aos ataques contra o Supremo Tribunal Federal e sua insistência que só Deus o tiraria da presidência.

"Parecia que estávamos ouvindo os ecos de Hugo Chávez", disse um negociador europeu, na condição de anonimato e numa referência ao populismo do ex-presidente da Venezuela. Uma representante do governo da Suíça também confirmou à reportagem que a situação brasileira está sendo "acompanhada de perto".

Uma carta ainda assinada por dezenas de parlamentares e ex-presidentes de mais de 20 países também chamou a atenção para a crise brasileira, enquanto serviços diplomáticos e mesmo adidos militares saem em busca de informação sobre quais serão os próximos passos do presidente.

Antecipando-se ao ato, a própria ONU lançou um alerta contra os ataques de Bolsonaro contra as instituições, indicando que estava "preocupada" com a situação. A partir da semana que vem, porém, a pressão internacional sobre o presidente brasileiro deve aumentar, diante das reuniões nas Nações Unidas e uma agenda repleta de temas relacionados à democracia e direitos humanos.