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Jamil Chade

"Vergonhosa", fala de Bolsonaro é recebida na ONU com indignação e chacotas

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

21/09/2021 12h06Atualizada em 21/09/2021 20h21

Delegações estrangeiras receberam o discurso do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na abertura da Assembleia Geral da ONU como uma mistura de indignação, decepção e ironias. Representantes de seis países diferentes consultados pelo UOL foram unânimes em alertar que, diante do descrédito completo do brasileiro no cenário internacional, o presidente "afundou" o país num isolamento ainda maior.

Existia uma esperança por parte de algumas delegações de que houvesse uma mudança de tom adotada pelo Brasil, diante da fragilidade internacional de Bolsonaro.

Mas, para a surpresa de muitos, o que se viu foi um discurso ainda mais radical e repleto de desinformação. "Fakenews speech [discurso]", escreveu um negociador alemão, assim que terminou sua fala. "Vergonhoso", disse outro representante europeu. Jornais como o Washington Post descreveram a fala como "embaraçosa", enquanto o Guardian destacou como o brasileiro atacou a exigência de um passe sanitário, uma realidade nos EUA e na Europa.

Já o New York Times apontou como Bolsonaro defendeu remédios sem comprovação científica, enquanto dezenas de comentaristas americanos ironizaram quando o serviço de conferências da ONU entrou em cena para desinfetar o pódio após sua fala. Joe Biden seria o próximo. Os dois líderes não se cruzaram nos bastidores.

"O Brasil transformou a tribuna mais sagrada da diplomacia em um disseminador de mentiras e vergonhas", acusou outro delegado.

Indignados ainda ficaram representantes da OMS, quando Bolsonaro falou sobre tratamento precoce contra a covid-19 sem qualquer tipo de comprovação científica. "O negacionismo na abertura de uma Assembleia-Geral é um dos pontos inesquecíveis dessa pandemia", ironizou um dos funcionários da agência.

Mesmo dentro do Itamaraty, à medida que o discurso era lido, embaixadores experientes e diplomatas não conseguiam esconder a revolta. "Vergonha alheia", escreveu por mensagem à coluna um deles.

Para delegações estrangeiras, a desconfiança internacional será ainda maior em relação ao Brasil depois da fala. "Como é que o governo quer que os demais parceiros o levem a sério", questionou um governo europeu. Na avaliação de membros do bloco, as mentiras contadas pelos governos ao longo de mais de dois anos de governo Bolsonaro pareciam que não conseguiriam mais ser superadas. Até que chegou a vez de o presidente subir ao púlpito da ONU nesta terça-feira.

Para um delegado de um país vizinho do Brasil na região, o tom do presidente foi revelador de um líder que está isolado no mundo e opta por ampliar essa marginalização.

Indígenas e Clima

Mas foram as supostas garantias de que o Brasil protege seus indígenas e sua floresta que criou uma reação mais indignada.

Para diplomatas estrangeiros, as palavras não apenas caíram num vazio, mas ampliaram o descrédito do presidente. "O Brasil apenas será levado a sério quando provar cada passo que der", disse um deles. Isso significa, segundo eles, mostrar a redução do desmatamento a cada mês, o compromisso com indígenas e ativistas de direitos humanos e o respeito pela democracia.

"Todas as informações que temos vão no sentido contrário da fala do presidente", afirmou outro delegado, apontando para o desmonte da FUNAI e de instituições de controle da floresta.

A garantia de democracia também contrasta com os alertas emitidos pela ONU, que apontou na semana passada estar preocupada com a crise entre os poderes e que fez um apelo para que o Estado de Direito fosse preservado.

Entidades como Human Rights Watch e a Transparency International também contestaram o discurso de Bolsonaro.

Já a ONG Conectas Direitos Humanos alertou que Bolsonaro "usou a tribuna da ONU para emitir um atestado de culpa de sua desastrosa gestão da pandemia ao defender o comprovadamente ineficaz tratamento precoce e atacar medidas de distanciamento social".

"Cabe agora à comunidade internacional dar uma resposta à altura", disse Camila Asano, diretora de programas da Conectas.

"Boa parte do discurso foi dedicada a tentar convencer investidores externos de que o Brasil teria tudo o que buscam. Mais uma vez o presidente parece ignorar que os investidores se afastam cada vez mais de países com governos que não respeitam os direitos socioambientais", afirmou.

"Os investidores não serão ludibriados por afirmações do discurso de que o Brasil teria uma forte legislação ambiental, quando é sabido que o governo Bolsonaro vem enfraquecendo órgãos de fiscalização como IBAMA e ICMBio e tentando aprovar no Congresso leis para dificultar a demarcação de terras indígenas e enfraquecer as regras de licenciamento ambiental", destacou Camila.

"Até quando tentou mostrar algum avanço em direitos humanos no Brasil, Bolsonaro mostrou o quanto essa agenda é fragilizada e distorcida por seu governo. De forma solta, o presidente citou a ratificação da Convenção Interamericana contra o Racismo. É sintomático que não tenha apresentado nenhuma política pública de combate ao racismo, dado que essa pauta nunca foi prioridade de sua gestão", completou a representante da entidade.

Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2020 a população negra foi alvo preferencial da letalidade policial, respondendo por 78,9% das 6.416 mortes por intervenção das forças de segurança.