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Jamil Chade

Sem vacinas para pobres, mortes pela covid-19 dobrarão no mundo

Cemitério Parque de Manaus tem ala lotada para sepultamentos por mortes de covid - Carlos Madeiro/UOL
Cemitério Parque de Manaus tem ala lotada para sepultamentos por mortes de covid Imagem: Carlos Madeiro/UOL
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

21/10/2021 11h34Atualizada em 21/10/2021 18h19


Com milhões de doses concentradas em poucos países, a OMS estima que o número de mortes pela covid-19 deve dobrar em 2022 e nos anos seguintes. Hoje, 4,9 milhões de óbitos foram registrados pela doença. Mas outras 5 milhões de vidas podem ser perdidas ainda, além de 200 milhões de novos casos de contaminação.

Na avaliação de Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, a ausência de vacinas é um "indiciamento" contra empresas e governos.

O chefe da agência fez, nesta quinta-feira, um apelo para que os países do G-20, quando se reunirem na semana que vem, optem por fechar acordos para liberar vacinas aos países mais pobres. "A barreira não é produção. A barreira é lucro", denunciou.

A cúpula ocorre em Roma em uma semana, enquanto a concentração de vacinas continua elevada. Hoje, 75% das mais de 6 bilhões de doses produzidas até hoje foram administradas em apenas dez países.

Segundo Tedros, os países ricos enviaram apenas 150 milhões para as economias mais pobres, enquanto governos anunciaram doações de mais de 1 bilhão de doses. "Não sabemos nem quanto e nem quando essas vacinas serão enviadas", lamentou.

Tedros apela para que países que tenham atingido mais de 40% de cobertura vacinal que cedam seus lugares na lista de espera pelas doses da Covax, o mecanismo criado pela OMS para distribuir vacinas nos países mais pobres.

Gordon Brown, embaixador da OMS e ex-primeiro ministro britânico, alertou que, se essas doses não forem enviadas aos países mais pobres, o mundo viverá "uma crise moral, epidemiológico e econômica".

O que choca o britânico é que, enquanto faltam vacinas nos países pobres, as economias ricas somarão 600 milhões de doses em estoque até o final do ano e 1 bilhão até fevereiro. Se não bastasse, dezenas de milhões de doses poderão expirar e terminarão no lixo. "É uma das catástrofes morais que vai chocar gerações futuras", alertou.

Annette Kennedy, presidente do Conselho Internacional de Enfermeiras, também aponta que a falta de proteção aos profissionais de saúde "é um indiciamento de governos" e que as estimativas apontam para pelo menos 115 mil mortes no setor pelo mundo. De cada cinco profissionais, apenas duas foram vacinadas até hoje. Na África, a taxa é de apenas 10%.

Segundo ela, além da morte de milhares de profissionais, cerca de 10% delas devem abandonar a profissão nos próximos meses. Sua projeção é de que, no total, haverá uma falta de 13 milhões de enfermeiras no mundo nos próximos anos. "Isso representa 50% dos funcionários da saúde. Nenhum setor de saúde consegue sobreviver a isso", disse. "Há uma nova crise se aproximando e essa é a crise da falta de trabalhadores", afirmou.