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Jamil Chade

Campanha tenta barrar cidade italiana de dar título de cidadão a Bolsonaro

14.nov.2019 - O presidente Jair Bolsonaro participa de evento (Diálogo com o Conselho Empresarial do BRICS) com os presidentes dos países do BRICS, Cyril Ramaphosa (Africa do Sul), Narendra Modi (Primeiro Ministro da Índia), Vladmir Putin (Rússia) e Xi Jinping (China) durante reunião de cúpula do grupo, no Palácio do Itamaraty. - Pedro Ladeira/Folhapress
14.nov.2019 - O presidente Jair Bolsonaro participa de evento (Diálogo com o Conselho Empresarial do BRICS) com os presidentes dos países do BRICS, Cyril Ramaphosa (Africa do Sul), Narendra Modi (Primeiro Ministro da Índia), Vladmir Putin (Rússia) e Xi Jinping (China) durante reunião de cúpula do grupo, no Palácio do Itamaraty. Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL e Janaína Cesar

24/10/2021 10h49

Uma campanha liderada por religiosos, políticos e mesmo moradores de uma pequena cidade tenta impedir que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) seja homenageado pelo município italiano de Anguillara Veneta, de onde vem sua família.

Bolsonaro viajará para a reunião do G-20, em Roma nesta semana. Mas o Itamaraty sugeriu nos últimos dias que a agenda do presidente ainda incluiria outros eventos.

A votação na câmara de vereadores da cidade está marcada para ocorrer na segunda-feira para aprovar a iniciativa de dar o título de cidadão honorário ao brasileiro. Mas, desde o final da semana passada, políticos locais estão sofrendo forte pressão para desistir da ideia. Desde que assumiu a presidência, Bolsonaro vem sendo alvo de protestos no exterior, em praticamente todos os locais para onde viaja.

"Bolsonaro é um racista, misógino e até mesmo um negacionista. Não há uma única razão válida para estar orgulhoso dele e dar-lhe a cidadania honorária de Anguillara Veneta », escreveu Vanessa Camani, vice-presidente do Partido Democratico na região. Citando a CPI da covid-19, a líder indicou que « Bolsonaro atrasou o início da campanha de vacinação por meses, promovendo tratamentos alternativos com eficácia não testada, como a hidroxicloroquina, e em mais de uma ocasião minimizou o perigo do vírus que causou estragos, especialmente entre a população indígena ».

"Mesmo antes da pandemia, houve quem se regozijasse com sua eleição e o chamasse de "embaixador do valor do povo Vêneto no mundo", com uma faixa fora do Palazzo Ferro Fini », contou.

"No entanto, ele havia se distinguido por seus elogios à ditadura militar, seu desprezo e insultos às mulheres e homossexuais, suas ameaças de aprisionar seus rivais políticos e, em seguida, as grotescas acusações contra as ONGs pelos incêndios que devastaram a Amazônia. Como se pode ter orgulho de tal personagem? Suas origens podem realmente prevalecer sobre esta amostragem de horrores?", questionou.

Numa carta à prefeita da cidade, religiosos italianos com base no Brasil também atacam a nomeação.

«Como cidadãos italianos que trabalham no Brasil há anos a serviço do povo brasileiro e da Igreja Católica brasileira (somos missionários, religiosos e 'Fidei Donum'), nos sentimos profundamente entristecidos e desconcertados. Nós nos perguntamos sobre quais méritos? Como um homem que durante anos, e continuamente, desonra seu país pode receber honra na Itália », diz a carta.

"Jair Bolsonaro é um presidente que está massacrando a vida do povo, especialmente dos mais pobres; ele criou uma política anti-Covid (e ainda continua a fazê-lo) que produziu milhares de mortes, promove a destruição e vende as terras da Amazônia. Como pode um presidente que colabora com a destruição da floresta amazônica receber honras em uma nação que luta pela preservação do planeta? », questionam.

O grupo ainda aponta como Bolsonaro endossa o desprezo explícito e insultos vulgares ao Episcopado Católico, representado pela Conferência Nacional (CNBB).

"Devido a suas ações, ele não pode ser reconhecido como um "cidadão italiano". Estamos profundamente ofendidos e exigimos a revogação desta honra. Não a Bolsonaro e sua política violenta e genocida!!!! Como coordenação dos missionários italianos que trabalham no Brasil, conhecendo em primeira mão os crimes que estão sendo contestados em sua pátria pelo Presidente da República Jair Messias Bolsonaro, pedimos ao município de Anguillara Veneta que não proceda com a concessão da cidadania honorária », completa a carta assinada pelos padres missionários italianos no Brasil, Giuseppe Spiga, Pietro Sartorel, Felice Tenero e outros.

Na Itália, o padre Massimo Ramundo é outro que atacou a homenagem. « Creio que a iniciativa do prefeito de Anguillara Veneta de conceder a cidadania honorária a Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil, deve ser interrompida imediatamente, disse.

« Além das diferenças políticas, que são inteiramente legítimas, é difícil entender porque Bolsonaro deveria receber este reconhecimento de um município italiano, já que, ao contrário de nosso país, o presidente brasileiro é um negador ferrenho tanto da Covid como da campanha de vacinação, e está removendo violentamente a terra dos nativos e dando-a aos grandes proprietários de terras, incentivando assim o desmatamento amazônico », afirmou.

« Portanto, concordo plenamente com a iniciativa tomada pelos missionários italianos no Brasil para impedir este ato perverso, que daria a Bolsonaro um reconhecimento internacional mínimo, num momento dramático da história da humanidade, entre a luta contra a Covid e a sustentabilidade ambiental, da qual o próprio Brasil é, infelizmente, a primeira vítima », completou.

Nas redes sociais, uma campanha também foi iniciada no site "change.org" para impedir que a cidade conceda o título ao presidente brasileiro. Entre os argumentos para frear a homenagem está o desmatamento na Amazônia e sua gestão da covid-19.

(Reportagem com Janaína Cesar)