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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Bolsonaro moderou pressão sobre Maduro após visita a Putin, diz oposição

Os presidentes do Brasil, Jair Bolsonaro, e da Rússia, Vladimir Putin, posam para foto após encontro no Kremlin - Mikhail Klimentyev / Sputnik / AFP
Os presidentes do Brasil, Jair Bolsonaro, e da Rússia, Vladimir Putin, posam para foto após encontro no Kremlin Imagem: Mikhail Klimentyev / Sputnik / AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

15/06/2022 04h00

O Brasil reduziu o tom de críticas públicas contra o governo de Nicolás Maduro, na Venezuela, num gesto que está sendo interpretado e criticado pela oposição venezuelana como resultado da aproximação entre o presidente Jair Bolsonaro e Vladimir Putin, um dos poucos aliados de Caracas.

Desde os primeiros dias do atual governo brasileiro, a Venezuela passou a ser alvo de constantes ataques por parte do Itamaraty, tanto em organismos de direitos humanos como na Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas). Caracas era usada pelo bolsonarismo como espantalho do que o Brasil supostamente poderia se transformar, no caso de um governo de esquerda. Citar Maduro, portanto, passou a ser útil como instrumento para mobilizar os grupos mais radicais do movimento de extrema-direita no país, ainda que a situação dos dois países não guarde qualquer semelhança.

Nos fóruns internacionais, isso foi revertido em atos como o de propor resoluções contra a Venezuela e até sair da sala de reuniões todas as vezes em que um representante de Caracas tomasse a palavra.

Membros da cúpula da oposição venezuelana, porém, agora se queixam de um Brasil "menos vocal". Ainda que o governo Bolsonaro continue a adotar a mesma estratégia de votar a favor de resoluções contra a Venezuela e de condenar a ditadura no país vizinho, negociadores brasileiros sinalizaram aos membros da oposição que não irão necessariamente liderar as ações ou encabeçar os esforços contra Maduro.

Para os grupos venezuelanos que fazem oposição ao regime de Maduro, a mudança tem uma relação com a recente aproximação de Bolsonaro com Putin. Ao longo dos últimos dois anos, foi Moscou quem manteve relações financeiras e comerciais com Caracas, permitindo que o regime de Maduro pudesse sobreviver economicamente.

No Itamaraty, fontes não negam que a relação com a Rússia possa ter tido um impacto. Mas destacam que não é o único fator e que a própria situação geopolítica diante da guerra na Ucrânia influenciou no tom do governo. Nas últimas semanas, mesmo a presidência de Joe Biden também adotou uma nova postura, reduzindo os ataques públicos contra Caracas, ainda que os venezuelanos não tenham sido convidados para a Cúpula das Américas, há uma semana. A explicação tem nome: petróleo. Diante da crise com a Rússia, o abastecimento venezuelano voltou a interessar às capitais ocidentais.

O próprio discurso de Bolsonaro na cúpula das Américas ignorou a Venezuela, o que deixou a oposição de Caracas frustrada.

"Deixo aqui uma mensagem de compromisso do Brasil com a integração das Américas, como continente próspero e democrático", disse, sem citar Caracas. "Ao longo de meu mandato, o Brasil manteve-se presente nos foros hemisféricos e regionais, trabalhando pela democracia, pela liberdade e pela prosperidade econômica e social", afirmou.

O tom se contrasta com o discurso de Bolsonaro na ONU em 2019. "A Venezuela hoje experimenta a crueldade do socialismo", disse o presidente. "O socialismo está dando certo na Venezuela. Todos estão pobres e sem liberdade", atacou.

"Trabalhamos com outros países, entre eles os EUA, para que a democracia seja restabelecida na Venezuela, mas também nos empenhamos duramente para que outros países da América do Sul não experimentem esse nefasto regime", apontou.

Naquele momento, ele não deixou de fazer uma referência ao próprio ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que hoje lidera as pesquisas de opinião para as eleições de outubro.

"O Foro de São Paulo, organização criminosa criada em 1990 por Fidel Castro, Lula e Hugo Chávez para difundir e implementar o socialismo na América Latina, ainda continua vivo e tem que ser combatido", disse.

Maduro x Putin

A crise mundial gerada por conta da guerra na Ucrânia também escancarou uma incoerência na diplomacia brasileira. Se por meses o governo de Jair Bolsonaro orientou seus diplomatas e ministros a deixaram as salas de reunião sempre que um representante de Maduro tomasse a palavra na ONU ou em outras entidades internacionais, um dos argumentos era de que não havia diálogo possível com Caracas e que, de fato, o regime não seria o governo legítimo do país.

Mas, quando os europeus e americanos passaram a fazer o mesmo contra a Rússia e sair das salas de negociação quando um representante do Kremlin toma a palavra, a postura do Brasil foi radicalmente diferente. A ordem é a de não isolar os russos, manter os canais de diálogo e impedir que organismos internacionais sejam sequestrados por essa politização.

Nesta semana, quando um representante de Putin discursou na OMC (Organização Mundial do Comércio), diplomatas de mais de 30 países deixaram a sala da conferência ministerial em protesto.