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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Falas de Bolsonaro sobre o MEC evoluem do temerário para o ridículo

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

27/06/2022 09h35

As manifestações de Bolsonaro sobre o escândalo do MEC evoluíram do temerário para o ridículo. O presidente soava temerário quando dizia que colocaria a cara no fogo pelo ministro. Descambou para o ridículo ao sustentar que Milton Ribeiro é perseguido por gente interessada em constranger o governo. Bolsonaro relança a surrada tese da perseguição política. Fala sobre as mazelas criminais ao redor não como presidente, mas como comentarista inocente do seu próprio governo.

O comentarista não diz nada sobre o grampo legal que permitiu à Polícia Federal escutar Milton Ribeiro contando para sua mulher que o ex-chefe lhe telefonara dos Estados Unidos para avisar sobre a operação de busca e apreensão que acabou ocorrendo 13 dias depois. Finge não existir a gravação em que o ex-ministro declara que abriu as portas do MEC para os pastores traficantes de verbas atendendo a um "pedido especial" de Bolsonaro.

O presidente comentarista se refere ao relaxamento da prisão do ex-ministro como suposta evidência de que nada foi descoberto sobre ele. Tolice. Bolsonaro ajusta o discurso. Na primeira hora, declarou coisas assim: "Se a Polícia Federal prendeu, tem um motivo." Agora, diz que a cana foi "injusta".

Bolsonaro faz de conta que ignora o fato de que a decisão provisória que soltou Milton Ribeiro e os demais integrantes do grupo que a PF chama de "organização criminosa" não tem nada a ver com o conteúdo cabeludo do inquérito. As celas foram abertas porque um desembargador do TRF-1 entendeu que os acusados poderiam responder em liberdade sem interferir na investigação.

É bem mais fácil e confortável para Bolsonaro sustentar a tese da formação de um complô urdido por um juiz de primeira instância, procuradores, agentes federais e repórteres comunistas para transformar um capitão modelo em corrupto. A alternativa seria admitir que tudo o que está na cara não passa de uma conspiração da lei das probabilidades contra um comentarista inocente.

Bolsonaro evoluiu da temeridade para o ridículo justamente num instante em que o processo foi remetido para o Supremo Tribunal Federal, por conta da suspeita de que o presidente interveio na PF para obstruir a investigação. O presidente e seus operadores contam com a impunidade proporcionada pela blindagem do procurador-geral Augusto Aras.