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PM que matou estudante tinha 6 meses de patrulhamento na rua, diz delegado

Câmeras flagraram a ação - Reprodução/TV Globo
Câmeras flagraram a ação Imagem: Reprodução/TV Globo
Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

11/08/2020 20h23

O DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa), apurou que o soldado da Polícia Militar Guilherme Tadeu Figueiredo Giacomelli, 22, investigado por ter atirado e matado o estudante Rogério Ferreira da Silva Júnior, 19, durante abordagem no último domingo, ingressou há seis meses no patrulhamento de rua. O caso ocorreu no Sacomã, zona sul de São Paulo.

O DHPP é um departamento da Polícia Civil. Giacomelli está sendo investigado em um inquérito do DHPP e em um inquérito policial militar (IPM), instaurado pela Polícia Militar. Quando há casos de morte envolvendo PMs, é a Polícia Civil que fica responsável pela investigação e, se necessário, por levar o processo à Justiça.

Segundo o diretor do DHPP, Fábio Pinheiro, Giacomelli é novato, não tem muita experiência como policial militar e teria se assustado durante a abordagem ao atirar em Rogério, pensando que ele pudesse estar armado.

O nome dele consta como investigado no boletim de ocorrência registrado pelo delegado Ricardo Travassos da Silva, da Polícia Civil.

Giacomelli e o PM Renan Conceição Fernandes Branco, 34, da Rocam (Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas), da 4ª Companhia do 46º Batalhão, perseguiram o estudante no Sacomã. Rogério foi baleado na avenida dos Pedrosos, altura do número 200.

O estudante levou um tiro disparado por Giacomelli. Os PMs alegaram que deram sinal para o rapaz parar, mas ele não obedeceu. Afirmaram ainda que, na avenida dos Pedrosos, Rogério colocou a mão na cintura e fez menção de atirar. Ele não estava armado.

O estudante foi socorrido por populares no pronto-socorro do Sesi, mas não resistiu.

Veja como foi a abordagem da PM

Band Notí­cias

O delegado Silva mencionou no boletim de ocorrência que a versão dos PMs bate com as provas e depoimentos de testemunhas colhidos no dia do fato.

Porém, Pinheiro disse que o DHPP procura por imagens de câmeras de segurança e outras testemunhas para poder elucidar o caso.

O departamento apurou também que o jovem não tinha antecedente criminal. A moto que ele ocupava, emprestada pelo amigo Guilherme dos Santos Porto, um vendedor de 19 anos, não tinha queixa de furto nem de roubo, e estava em situação regular.

Porto disse ao UOL que Rogério queria passear de moto. "Ele deixou o carro dele comigo e foi dar umas votas de motocicleta. Minutos depois encontrei ele caído, baleado. Perdi um amigo de infância. A ficha parece que não caiu ainda", desabafou.

Segundo Porto, o estudante era órfão de pai, e ajudava a mãe, os dois irmãos mais novos e a irmã mais velha no sustento da casa.

Porto disse que Rogério fez curso de cabeleireiro e estava se especializando em pigmentação capilar. "O sonho do meu amigo era montar um grande salão", contou o vendedor.

Porto afirmou esperar por justiça. "Mataram um inocente. Vamos brigar por justiça quanto tempo for necessário", disse.

Registro da ação

Câmeras de segurança registraram a ação. O advogado Ariel de Castro Alves, conselheiro do Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), afirmou que as imagens mostram indício de execução.

O UOL ligou para o escritório dos advogados Charles dos Santos Cabral Rocha e Alessandra Almeida de Sousa, defensores dos policiais militares, mas não conseguiu contato com eles.

O tenente-coronel Emerson Massera, porta-voz da PM, informou que o soldado Guilherme Giacomelli entrou na corporação em dezembro de 2018, estudou um ano no curso de formação de soldado e tem seis meses de patrulhamento na rua. Já o PM Renan Branco está na instituição desde 2016.

Segundo Massera, o soldado Guilherme "infelizmente errou" e pode ter se assustado com o episódio dos três PMs que foram mortos dias antes em uma abordagem". "Isso pode tê-lo deixado assustado. Ele está sendo investigado, vai responder a inquérito, mas não pode ser massacrado. Se for preso, agora, nesse momento, vai ser uma injustiça."

Questionada sobre o caso, a Secretaria Estadual da Segurança Pública reafirmou a nota enviada à imprensa ontem. "Todas as circunstâncias relacionadas aos fatos são apuradas pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) e por meio de inquérito policial militar (IPM), instaurado pela PM. Os policiais envolvidos na ocorrência foram afastados do policiamento operacional. A equipe do DHPP realiza oitivas de testemunhas e familiares do rapaz. A Corregedoria da PM acompanha as investigações", diz a nota.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.