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K4, a maconha sintética, é a droga mais vendida dentro dos presídios de SP

K4, chamada de maconha sintética: apreensões em presídios de SP aumentou 488,83% em um ano, diz secretaria - Divulgação/SAP
K4, chamada de maconha sintética: apreensões em presídios de SP aumentou 488,83% em um ano, diz secretaria Imagem: Divulgação/SAP
Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

25/09/2020 17h37

Era de dentro das celas que um grupo de presos administrava o tráfico interno de K4, a maconha sintética, nas dependências da Penitenciária de Presidente Bernardes, distante 578 km da capital paulista. O presídio é dominado pela facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).

Os presos traficantes foram flagrados por agentes penitenciários, indiciados pela Polícia Civil em 2018 e condenados pelo juiz Vinícius Peretti Giongo no último dia 31 de agosto — quando o PCC completava 27 anos de existência —, a penas que variam de 16 anos a 19 anos de reclusão.

O K4 já é considerado uma das maiores preocupações das autoridades do sistema prisional paulista e Ministério Público de São Paulo. A nova droga sintética se espalhou por quase todas as penitenciárias e CDPs (Centros de Detenção Provisória) do estado.

Segundo o toxicologista Anthony Wong, do Hospital das Clínicas, o K4 é até 80 vezes mais potente do que a maconha natural e funciona como estimulante, deixando o usuário mais agitado e agressivo, diferentemente da canabis sativa, cujo efeito está mais para sedativo.

"A maconha sintética ocupa o mesmo local que a canabis no neurônio, mas causa inibição cerebral bem mais intensa, mais forte, e provoca não só dependência psíquica, mas também física, assim como as anfetaminas", explicou o médico.

Procurada pelo UOL, a SAP (Secretaria Estadual da Administração Penitenciária) informou que houve aumento de 488,83% no número de apreensões de K4 em correspondências e na área externa dos presídios paulistas no comparativo entre janeiro a julho de 2019 a igual período de 2020.

A pasta informou ainda que o número de ocorrências que resultaram nas apreensões também quintuplicou, passando de 86 no mesmo período de 2019 para 472 em 2020.

Dose custa R$ 30 nas prisões, aponta investigação

Impedir a entrada de K4 nos presídios não é fácil. A droga é produzida em laboratório de forma líquida e depois borrifada em papéis, fotos, cartões e até selos. A detecção é extremamente difícil. Por conta disso, parentes de presos estão proibidos de enviar papel higiênico para os detentos.

O tráfico de K4 nas penitenciárias estaduais paulistas tornou-se uma atividade ilícita rentável para os presos traficantes. Planilhas de contabilidade apreendidas por agentes penitenciários com detentos mostram que cada microponto (dose) da droga é vendido por até R$ 30.

A primeira apreensão de K4 no sistema prisional paulista aconteceu em dezembro de 2017. E foi justamente na Penitenciária de Presidente Bernardes. Quatro meses depois, em 6 de abril de 2018, a Polícia Civil foi informada sobre o tráfico de drogas dentro da unidade.

Grupo foi preso e ligado ao PCC

Tudo começou com uma denúncia anônima, dando conta de que em uma casa em Presidente Bernardes moravam mulheres e parentes de presidiários que atuavam na inclusão de drogas, especialmente K4, na penitenciária local.

Um inquérito foi instaurado para apurar o caso. Policiais civis cumpriram mandado de busca e apreensão no local e apreenderam um telefone celular. No aparelho periciado havia troca de mensagens das mulheres com os presos de Presidente Bernardes.

Além do K4, as mulheres e parentes dos presos também foram acusados de introduzir telefones celulares no presídio. Era com os aparelhos que os presidiários administravam o tráfico de drogas naquela prisão e também nas ruas.

O preso Maurício Fernando Gandelini, 42, o Pira, apontado como chefe do grupo, foi condenado a 19 anos. Ericson Gregório, 37, recebeu a pena de 17 anos e sete meses. Outros quatro prisioneiros tiveram condenação de 16 anos e três meses.

As mulheres também foram condenadas a penas que variam de 6 anos a 13 anos de reclusão. O grupo foi acusado de integrar o PCC.

Em nota, a SAP acrescentou que a política da pasta é de não tolerância à entrada de ilícitos, inclusive entorpecentes, em suas unidades prisionais.

Segundo a secretaria, todos os CDPs, penitenciárias e Centros de Progressão Penitenciária contam com escâner corporal, aparelhos de raio-X e detectores de metais de alta sensibilidade.

"Esses equipamentos ajudam a coibir a entrada de equipamentos e drogas, atrelados a uma vigilância constantes dos agentes de segurança, treinados para evitar a entrada de ilícitos nas unidades, além de revistas periódicas nas dependências dos presídios", finaliza a nota.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.