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Josmar Jozino

PM revela em videoconferência como achou o maior bunker do PCC em São Paulo

Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

05/08/2021 07h00

Em 14 de março de 2013, Pedro Hiran Esteves Ornelas, 38, era tenente da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), quando o serviço de inteligência da tropa de elite da Polícia Militar o acionou para uma missão: encontrar um esconderijo com grande quantidade de armas e drogas em poder do PCC (Primeiro Comando da Capital).

Os agentes passaram as coordenadas ao oficial. A orientação era para pegar a rodovia Regis Bittencourt, também conhecida como BR-116, que liga São Paulo ao Paraná, seguir até a cidade paulista de Juquitiba e entrar em uma estrada vicinal.

Depois da saída da Régis Bittencourt, as viaturas de Rota circularam em torno de 10 minutos, percorrendo de três a quatro quilômetros em uma estrada de terra batida. A área de mata era cercada por algumas propriedades rurais. Os militares não tiveram dificuldade para encontrar o que procuravam.

O alvo do serviço de inteligência da Rota era o criminoso Síto Sarandi. Mas a propriedade e o responsável por ela, identificado como Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho - um narcotraficante procurado inclusive pela Interpol, a Polícia Internacional -, já eram monitorados pela Polícia Federal.

Os PMs da Rota não conseguiram prender Fuminho. Porém, encontraram no sítio algo jamais visto no Brasil: um sofisticado bunker com elevador e motor hidráulico usado na elevação de uma tampa de concreto. O local era usado para armazenar armamento de grosso calibre e cocaína e maconha.

Fuzis e cocaína

Em 18 de novembro de 2020, já promovido a capitão e lotado na Assessoria Militar da Câmara Municipal de São Paulo, Hiran contou à juíza Letícia Antunes Tavares, da 2ª Vara Criminal de Itapecerica da Serra, na Grande SP, como encontrou o maior bunker da história do PCC.

O depoimento do oficial foi feito por videoconferência. Era audiência para ouvir as testemunhas de acusação contra Fuminho, processado por tráfico de drogas e condutas afins, por causa da apreensão, no sítio, de 450 kg de cocaína, 8 kg de maconha e 24 armas, incluindo fuzis e metralhadoras.

Fuminho acompanhou a videoconferência na Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná, ao lado do advogado Eduardo Dias Durante.

O narcotraficante associado ao PCC acabou preso em abril de 2020, em Maputo, capital de Moçambique, na África, depois de ficar 21 anos foragido. Ele havia escapado da Casa de Detenção, no Carandiru.

Outros cinco réus acusados de envolvimento com as armas e as drogas apreendidas pelos militares da Rota no Sítio Sarandi também foram processados e condenados pela Justiça de Itapecerica da Serra. O processo contra Fuminho foi desmembrado e continua tramitando.

Pés acorrentados

Fuminho foi levado à sala de videoconferência com as mãos algemadas e os pés acorrentados. Ele usava máscara para se proteger contra o coronavírus. Em São Paulo participaram da audiência outro advogado de Fuminho, Luiz Coimbra Correa, e o promotor de Justiça Juliano Carvalho Atoji.

A reportagem teve acesso com exclusividade ao vídeo com o depoimento do oficial. Pedro Hiran Esteves Ornelas afirmou à juíza que em toda a carreira militar dele jamais havia encontrado um bunker como o de Itapecerica da Serra.

O oficial afirmou que só pessoas com bastante influência e muito dinheiro teriam condições para construir algo parecido. Ele declarou que o bunker tinha de 50 a 60 metros quadrados e que uma parte era usada para guardar armas e outra, entorpecentes.

Hiran acrescentou que foram apreendidos armamentos novos, de pronto funcionamento e grosso calibre, como fuzis AR-15 e AK-47, além de metralhadoras e pistolas. Ele revelou que em poucas ocorrências encontrou tantas armas e que só uma facção como o PCC poderia ter um arsenal assim.

De acordo com o militar, as informações passadas pelo serviço de inteligência da Rota deixaram claro que poderia haver criminosos perigosos no sítio e, por esse motivo, ele mobilizou em seu pelotão 20 homens da Rota para atender a demanda. Ninguém foi preso no imóvel.

Indagado pelo promotor Atoji se no mesmo dia outras guarnições da Rota encontraram mais um bunker parecido com o de Itapecerica da Serra, Hiran respondeu que sim, que a localização foi na zona leste de São Paulo e que o imóvel também era do PCC e usado apenas para refinar cocaína.

Ainda de acordo com Hiran, o bunker de Itapecerica da Serra tinha iluminação, ventilação e espaço para a quadrilha ficar lá durante dias com segurança, caso alguém quisesse acessar.

O oficial ressaltou que em toda a carreira dele nunca tinha visto algo parecido.