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Josmar Jozino

Doleira da Lava Jato se uniu ao PCC para enviar cocaína à Europa, diz PF

A doleira Nelma Kodama - Marlene Bergamo - 5.set.17/Folhapress
A doleira Nelma Kodama Imagem: Marlene Bergamo - 5.set.17/Folhapress
Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

22/04/2022 09h48

Investigações da Polícia Federal apontam que a doleira Nelma Mitsue Penasso Kodama, 55, primeira delatora da Operação Lava Jato, se aliou a um integrante do alto escalão do PCC (Primeiro Comando da Capital) para enviar cocaína à Europa.

Agentes federais apuraram que era de Kodama parte dos 580 kg de cocaína apreendidos na fuselagem de um jato da empresa portuguesa Omini Aviação e Tecnologia, em 9 de fevereiro de 2021, no Aeroporto Internacional de Salvador, na Bahia.

Segundo a Polícia Federal, a outra parte da droga pertencia a Marcelo Mendonça de Lemos, 47, conhecido como Marcelo Grandão ou Marcelo Infraero. Ele é apontado pela PF como integrante do alto escalão do PCC, a maior facção criminosa do Brasil.

O jato foi fretado em Cascais, Portugal, por 145 mil euros, por Marcelo, em 28 de janeiro de 2021, através da empresa Lopes & Ferreira Ltda, de propriedade do advogado Marcos Paulo Lopes Barbosa, 47, residente em São Paulo.

De Salvador, o voo teve como destino a cidade de Jundiaí, no interior paulista. Lá, a aeronave ficou em um hangar onde os 580 kg de cocaína foram escondidos na fuselagem. No retorno à capital baiana, o piloto identificou problemas no freio do avião. Mecânicos encontraram a droga após inspeção.

A Polícia Federal descobriu que o carregamento da cocaína foi contratado pelo advogado Rowles Magalhães Pereira da Silva, 52, ex-namorado de Nelma Kodama, lobista e ex-assessor parlamentar em Mato Grosso, e pelo sócio dele, Ricardo Agostinho, 31, funcionário público federal.

Os dois são acusados pela PF de terem adquirido a Omni Aviação, dona do jato de luxo onde a droga foi apreendida no aeroporto de Salvador. A dupla também é suspeita de ter encomendado diversas remessas de cocaína para a Europa feitas em outras aeronaves no período de junho a outubro de 2020.

Os carregamentos também eram enviados para a Europa em outro avião, de prefixo PP-SDW, de propriedade de André Luiz Santiago Eleutério, 43, conhecido como Careca ou Negão. Uma das remessas terminou na apreensão em flagrante de 175 kg de cocaína em Portugal, em 1º de outubro de 2020.

As interceptações telefônicas realizadas pela PF com autorizações judiciais mostram que Nelma Kodama, Rowles e Ricardo tiveram participação ativa nas remessas de droga. Em um dos diálogos, os investigados ainda comemoram o sucesso de uma das operações.

Rowles Magalhães tem nacionalidade brasileira e portuguesa. Nas mensagens enviadas por telefone celular, ele, Nelma Kodama e Ricardo Agostinho trocam informações sobre os carregamentos de drogas, pagamentos de fretes de aeronaves e contratações de hangares.

Em algumas mensagens, Rowles briga com Nelma Kodama e diz que ela está lhe traindo e lhe passando para trás em outras negociações mantidas com Ricardo sobre remessas de drogas, pois teria acertado um voo com este último.

O advogado Nelson Wilians, que representa Nelma Kodama, diz que a empresária continua em detenção provisória até a decisão sobre o pedido de extradição. Em audiência nesta quinta-feira (21), no Tribunal da Relação de Lisboa, foi dado o prazo de 18 dias para que o Brasil apresente a documentação completa para a extradição. "Confiamos na Justiça e, em breve, tudo será esclarecido e resolvido para nossa cliente", diz Nelson Wilians.

A reportagem não conseguiu falar com a defesa de Rowles, mas publicará a versão assim que houver as manifestações dos defensores.

Os dados telemáticos dos investigados aos quais a PF teve acesso apontam também o envolvimento do ex-secretário estadual de Ciência e Tecnologia de Mato Grosso, Nilton Borges Borgato, 49, chamado de Índio, com Rowles, Ricardo e Nelma Kodama.

De acordo com a Polícia Federal, os diálogos interceptados mostram que no final de novembro de 2020 Borgato e o empresário Cláudio Rocha Júnior, 42, acertam com Ricardo a contratação de um voo procedente de Portugal para buscar cocaína no Brasil.

Em uma das conversas Nelma Kodama informa que a remessa da droga está confirmada. Rocha Júnior aparece em diversas interceptações telefônicas. A PF diz que ele participa do tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro e atua na América do Sul, Europa, Estados Unidos e Austrália.

Já o doleiro Marcelo Lucena da Silva, 38, é acusado pela Polícia Federal de cuidar das transações financeiras e da lavagem de dinheiro de Rowles Magalhães e Ricardo Agostinho, apontados como chefes da organização criminosa.

Na última terça-feira (19), a PF deflagrou a Operação Descobrimento, desencadeada no Brasil e em Portugal, visando a desarticulação da quadrilha voltada ao tráfico internacional de drogas. Foram expedidos 43 mandados de busca e apreensão cumpridos em cinco estados brasileiros. Sete pessoas foram presas.

Nelma Kodama foi detida no hotel mais caro de Lisboa, a capital portuguesa. Ela havia sido detida em 2014, em São Paulo, no âmbito da Operação Lava Jato, quando tentava embarcar para Milão, na Itália, com 200 mil euros escondidos na calcinha.

Rowles Magalhães foi preso em São Paulo. A defesa dele alegou à imprensa que não há elementos para a manutenção da prisão do cliente e que a detenção pode ser substituída por medidas cautelares.

Borgato foi preso em seu apartamento de luxo em Cuiabá (MT). A defesa do ex-secretário afirma que vai entrar na Justiça com habeas corpus ou pedido de revogação da prisão do cliente.