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Juliana Dal Piva

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Vereador tentou liberação rápida de corpo de enteado sem passar por IML

Caso Henry: Jairinho e mãe de Henry concedem entrevista ao "Domingo Espetacular" - Reprodução/TV Record
Caso Henry: Jairinho e mãe de Henry concedem entrevista ao "Domingo Espetacular" Imagem: Reprodução/TV Record
Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

25/03/2021 04h00Atualizada em 26/03/2021 10h45

O vereador do Rio Dr. Jairinho (Solidariedade-RJ), padrasto de Henry Borel, tentou fazer uma liberação rápida do corpo do menino de 4 anos no Hospital Barra D'Or, na Barra da Tijuca, sem que o cadáver fosse enviado para o Instituto Médico Legal para produção de laudo de necropsia. Henry morreu no último dia 8 e o caso está sendo investigado pela 16ª Delegacia de Polícia do Rio de Janeiro.

Nesta semana, os policiais estão ouvindo testemunhas. A equipe médica que atendeu o menino já prestou depoimento. As três pediatras informaram aos policiais que a criança já chegou sem vida na unidade de saúde.

As médicas também relataram à polícia que Henry apresentava lesões no corpo. Com isso, o protocolo de mortes violentas exige que seja feito o encaminhamento para análise dos peritos do IML. No entanto, o vereador tentou junto à equipe médica e depois com outros funcionários do hospital Barra D'Or fazer uma liberação rápida, sem que o corpo fosse para o IML. A coluna apurou que, além de mensagens, ele fez diversas ligações fazendo o mesmo pedido.

As solicitações foram negadas pela equipe do hospital devido às lesões vistas, algumas nos braços do menino. Depois, nos laudos de necropsia feitos pelo IML, elas também foram verificadas. O laudo de necropsia atestou que Henry sofreu hemorragia interna e laceração hepática, provocada por ação contundente, além de outras lesões na cabeça e no tórax.

O advogado André França, que representa o vereador e Monique Medeiros, mãe de Henry e namorada do parlamentar, afirmou que é uma "questão especulativa". "Toda a família, várias pessoas pediram a liberação, inclusive também a Monique, pode aderir aí a Monique também. O próprio pai porque as pessoas querem enterrar os seus, participar de velório, essas coisas todas, então o interesse é acelerar. Tem hora até para funcionar o enterro, que é reduzido. Então certamente por esse motivo, nada diferente disso. Qualquer pessoa vai querer agilizar para que você possa fazer de caixão aberto, para que você possa ter um velório, entendeu? Somente por isso", afirmou França à coluna. O defensor do casal não explicou porque insistiu na liberação mesmo com a identificação das lesões.

Leonardo Barreto, advogado de Leniel Borel, disse que é "mentira" que o pai de Henry tenha solicitado liberação rápida sem que o corpo fosse ao IML. Borel disse que registrou boletim de ocorrência depois de ter recebido orientação da equipe médica responsável pelo atendimento do menino. Na ocasião, também pediu um laudo do Instituto Médico Legal (IML).

Até o momento mais de 10 pessoas foram ouvidas. Nesta semana, uma ex-namorada de Jairinho afirmou que ela e a filha foram agredidas pelo político há oito anos, quando os dois mantinham um relacionamento. A testemunha - que não teve o nome divulgado - detalhou aos agentes da 16ª DP, por cerca de seis horas, as violências sofridas pelas duas. Segundo a mulher, as agressões não foram denunciadas por medo de retaliações.

O caso está sob investigação do delegado Edson Henrique Damasceno, titular da 16ª DP, que também ouviu a empregada doméstica que trabalha na casa de Monique. A polícia quer esclarecer se a funcionária sabia ou não do ocorrido, já que a casa foi limpa antes da perícia.

Versão do casal

No domingo à noite, 7 de março, o engenheiro Leniel Borel entregou o menino Henry no apartamento onde a mãe mora com Dr Jairinho, seu namorado. Segundo eles, Henry pediu para dormir - como era costume - na cama do casal.

O casal disse que ficou assistindo televisão na sala. Segundo Monique, em um determinado momento ela e o namorado foram para o quarto de hóspedes para o barulho não incomodar Henry. A professora relatou que Jairinho dormiu devido aos remédios que toma e que, por volta de 3h30, ela levantou e acordou o político.

Nesse momento, o vereador foi ao banheiro e, ao voltar para o quarto, a mãe encontrou o filho no chão já desacordado e gelado. Ela disse que ligou para o pai de Henry e avisou sobre o ocorrido. Segundo Leniel Borel, a mãe e o namorado relataram ter escutado um barulho vindo do quarto - fato que não foi informado pela mãe e padrasto do menino na delegacia.

No trajeto para o hospital, Monique diz que realizou procedimento boca a boca, recomendado pelo médico, mas o menino não respondeu. Na semana passada, Monique e Jairinho foram ouvidos por cerca de 12 horas. Em depoimento, a mãe de Henry disse acreditar que ele possa ter acordado, ficado em pé sobre a cama, se desequilibrado ou tropeçado no encosto da poltrona e caído no chão.

A polícia também tenta esclarecer por que a casa foi limpa por funcionários antes da perícia. Dr Jairinho disse, em depoimento, que, ao voltar para casa depois da morte de Henry, por volta das 10h, viu a namorada, uma assessora e a doméstica conversando sobre o caso. Entretanto, Monique falou que a mulher não tinha conhecimento da morte de Henry e por isso limpou o apartamento, comprometendo assim a perícia do local.