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Juliana Dal Piva

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Empregada diz que Henry ficou "apavorado" após dia de agressão com Jairinho

Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

15/04/2021 08h20

Em novo depoimento na quarta-feira (14), a empregada doméstica Leila Rosângela de Souza Mattos contou ter visto o menino Henry Borel, morto no dia 8 de março, com cara de "apavorado" depois que ele saiu do quarto em que estava sozinho com o vereador Jairo Souza Santos, o Dr. Jairinho. A funcionária disse ainda que Monique Medeiros, mãe de Henry, relatou a ela que no carnaval Henry teve um "surto" com o padrasto. As declarações foram prestadas na 16ª Delegacia de Polícia do Rio, que investiga o assassinato de Henry.

No dia 12 de fevereiro, quando ocorreu a sessão de tortura descoberta pela polícia por mensagens entre a mãe de Henry e a babá, a empregada diz ter notado que o menino saiu correndo do quarto assim que a porta abriu e foi para o colo da colega de trabalho.

Ela relatou ainda à polícia que "ouviu quando Henry falou à Thayná que não queria mais ficar sozinho na sala. Observou que Henry estava com "cara de apavorado" quando chegou no colo de Thayná", contou Leila.

A empregada, porém, disse que presenciou quando Thayná perguntou ao menino o que tinha acontecido e ele "nada respondeu, ao menos no tempo em que ela presenciava os acontecimentos".

Algum tempo depois, o vereador saiu de casa e Henry se recusou a cumprimentá-lo com a mão. "Henry não quis ir "bater na mão" de Jairinho, então Thayná levou Henry em seu colo até Jairinho para que Henry, então, batesse a mão na mão de Jairinho, o que foi feito", disse a empregada.

Leila afirmou aos policiais que, depois que o patrão saiu de casa, notou que Henry estava mancando. "Após isso, a declarante viu que Henry estava mancando".

Ela não perguntou o garoto o motivo de ele estar mancando. "Entretanto, ouviu quando Thayná perguntou a Henry a razão dele estar mancando, tendo ouvido também que Henry respondeu que havia caído da cama", afirmou ela.

No entanto, a babá Thayná Ferreira reiterou, em depoimento prestado essa semana, o conteúdo das mensagens enviadas a Monique Medeiros nas quais relatou que Henry havia dito que sofreu uma rasteira ou "banda" do vereador e que também estava com dores na cabeça devido a agressões.

Thayná, inclusive, relatou três episódios de possíveis agressões contra Henry.

Remédios

A empregada doméstica relatou ainda que tanto Monique como Jairo "tomavam muitos remédios", mas ela não sabia dizer o motivo do uso. Além disso, ela informou que Monique dava a Henry remédio para ansiedade três vezes ao dia e também um "xarope de maracujá".

De acordo com o relato de Leila, Monique afirmava que o menino tomava os remédios porque não dormia direito. Ela relatou ainda que Henry chorava muito e também presenciou episódios em que ele vomitou.

"Certa vez, quando viu que Henry chorava muito, ouviu quando Monique falou a ele que ele era "muito mimado" e que se ele continuasse chorando à toa, ela "levaria ele para morar com o pai dele", tendo Henry dito que não queria morar com o pai", afirmou Leila.

"Surto" no carnaval

A empregada relatou ainda que no domingo de carnaval ligou para Monique. A mãe de Henry disse que quase voltou de viagem antes do tempo porque "Henry teve um surto com Jairinho" e que foi a maior discussão".

Leila disse ainda que Monique relatou ter conseguido acalmar o menino e, com isso, os três decidiram ficar mais, até a segunda-feira momesca. O "surto" foi depois de, pelo menos, duas agressões de Jairinho a Henry, segundo a babá.

O delegado questionou porque ela não tinha mencionado esses fatos no depoimento anterior e a empregada disse que "só não contou porque não se recordava". Ela negou ter recebido qualquer orientação sobre como deveria prestar depoimento.