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Juliana Dal Piva

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Ao ouvir voz de prisão, Fabrício Queiroz tentou fingir que não era ele

Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

09/07/2021 04h00

Ao receber voz de prisão, Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), tentou fingir que não era ele a pessoa que os policiais estavam procurando. Em entrevista exclusiva, o promotor paulista José Cláudio Báglio, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), contou como foram os bastidores da operação que prendeu Queiroz.

A entrevista está no 4º episódio do podcast UOL Investiga - A Vida Secreta de Jair . Você pode ouvir o podcast no UOL, Youtube e em todas as plataformas de podcasts, como Spotify, Apple Podcasts, Google Podcasts e Amazon Music.

"No começo, ele [Queiroz] não admitiu que era ele. Mas depois de verificar que a gente já tinha a identificação e não adiantava essa negativa, ele confirmou, efetivamente, que era ele", contou José Cláudio Báglio.

O promotor disse ainda que até o caseiro da chácara de Frederick Wassef, propriedade onde Queiroz estava escondido quando foi preso, também não sabia o nome do policial. "O próprio caseiro disse que não sabia quem era. Se eu não me engano, o caseiro disse que conheceu ele por outro nome", contou Báglio.

FABRÍCIO QUEIROZ - Reprodução/Band - Reprodução/Band
Fabrício Queiroz, no dia em que foi preso: 18 de junho de 2020
Imagem: Reprodução/Band

"Chácara de um amigo"

A prisão ocorreu em 18 de junho de 2020. Segundo o promotor, Queiroz justificou sua presença na propriedade do advogado da família Bolsonaro informando que estava ali porque a chácara pertencia a um "amigo".

"Ele disse apenas que estava na chácara de um amigo", contou Báglio. Na frente do local, estava uma placa identificando a propriedade como um escritório de advocacia. O promotor contou ainda que a casa não parecia um escritório de advocacia.

"Não tinha nenhum indicativo de escritório de advocacia. Ele disse que tinha sido policial militar e era PM aposentado e que nunca pensou que ia passar por uma situação dessas. Isso ele me disse", contou Báglio.

O promotor contou que foi procurado pela equipe de promotores do Rio de Janeiro pedindo apoio dias antes da operação. Na véspera foi feito um reconhecimento do local e a verificação de que Queiroz estava no local. Como também foi verificada a placa do escritório de advocacia na frente, Báglio disse que solicitou a presença de representantes da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Segundo Báglio, tudo foi tratado com bastante sigilo e os policiais que acompanharam a operação só souberam quem era o alvo minutos antes da prisão.

Báglio também contou que uma das poucas coisas que Queiroz disse após a prisão foi que não esperava passar por aquilo. "Ele disse que tinha sido policial militar e era PM aposentado e que nunca pensou que ia passar por uma situação dessas. Isso ele me disse", contou o promotor.

queiroz - Fabrício Queiroz, em entrevista ao SBT realizada em dezembro de 2018 - Fabrício Queiroz, em entrevista ao SBT realizada em dezembro de 2018
Imagem: Fabrício Queiroz, em entrevista ao SBT realizada em dezembro de 2018

Preso por um ano

De SP, Queiroz foi enviado para o RJ. Ele e a mulher tiveram a prisão decretada pelo juiz Flávio Itabaiana, da 27ª Vara Criminal do Rio, em junho do ano passado, durante as investigações sobre desvio de salários no antigo gabinete de Flávio na Alerj.

Em seguida, o ex-assessor e a mulher, Márcia Aguiar, ficaram oito meses em prisão domiciliar. Queiroz ainda ficou um mês preso em Bangu. Já sua mulher passou um mês foragida, até que a defesa obteve um habeas corpus.

Em outubro do ano passado, Queiroz foi denunciado junto com o senador e outras 15 pessoas por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. O MP apontou que o policial militar era o operador de um esquema que desviou, pelo menos, R$ 6 milhões da Alerj. Desse valor, mais de R$ 2 milhões passaram pela conta bancária de Queiroz, e são oriundos de repasses feitos por outros ex-assessores do filho mais velho do presidente.

Queiroz foi colocado em liberdade pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça) em março deste ano. Assim que foi posto em liberdade, Queiroz retomou sua rotina de alinhamento com a família Bolsonaro, fazendo postagens favoráveis ao clã nas redes sociais.

Ele também tem feito acenos defendendo as mesmas posições do presidente Jair Bolsonaro. Em abril, tentou emplacar uma de suas filhas em uma vaga na Casa Civil do Palácio Guanabara. No entanto, quando a nomeação foi descoberta, a equipe do governador do Rio, Cláudio Castro, voltou atrás e a tornou sem efeito.

Queiroz, porém, continua circulando e retomando os contatos políticos que possuía após ter ajudado a eleger grande parte das bancadas federal e estadual do PSL no Rio de Janeiro. Ele disse à coluna, em junho deste ano, que era uma "boa ideia" se candidatar a deputado federal na eleição de 2022. O policial foi assessor de Flávio Bolsonaro na Alerj entre 2007 e outubro de 2018.