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Juliana Dal Piva

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Morre Cabo Anselmo, ex-agente infiltrado da ditadura

José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, no programa "Roda Viva", em São Paulo (SP) - Alexandre Rezende/Folhapress
José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, no programa "Roda Viva", em São Paulo (SP) Imagem: Alexandre Rezende/Folhapress
Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

16/03/2022 15h21

José Anselmo dos Santos, conhecido como Cabo Anselmo, morreu na noite de terça-feira (15) no hospital São Vicente, em Jundiaí (SP), no interior de São Paulo. Pessoas próximas a ele confirmaram à coluna a morte do ex-agente, mas pediram anonimato. Ele estava com 80 anos e morreu devido a complicações causadas por cálculo renal.

Ele ficou conhecido nacionalmente depois que se tornou um agente infiltrado da ditadura militar nos grupos guerrilheiros. A trajetória de Anselmo, que se tornou o principal colaborador dos órgãos de repressão do regime militar, é revisitada no livro "O Massacre da Granja de São Bento", do jornalista pernambucano Luiz Felipe Campos. Acredita-se que ele se tornou agente da ditadura após ser preso em SP em 1971, mas há desconfiança entre ex-presos políticos de que ele já atuava para a repressão política antes disso.

A obra relembra a operação que resultou na morte de seis militantes da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), em janeiro de 1973, no Grande Recife, e teve participação decisiva do agente duplo. Ex-integrantes da VPR denunciam que ele armou uma armadilha atraindo um grupo inteiro para ser assassinado pelos agentes da ditadura. Na ocasião, foi assassinada até a então companheira de Anselmo, Soledad Barret Viedma. Em 2015, Anselmo lançou, pela editora Matriz, a autobiografia "Minha Verdade". Na obra, ele disse que tinha recebido a promessa do delegado Sérgio Fleury de que Soledad seria poupada, o que não ocorreu.

Cabo Anselmo teve sua identidade militar cassada quando foi expulso da Marinha, em 1964. Ele ficou conhecido nacionalmente, na época, por protagonizar uma revolta de marinheiros em março daquele ano --episódio que foi um dos pretextos usados pelos militares para o golpe de Estado.

Depois dos assassinatos no Recife, ele voltou a São Paulo e passou a viver com nova identidade e na clandestinidade. Antes da ação no Recife, porém, Anselmo também tinha auxiliado os militares na prisão e morte de outros opositores. Ele pediu anistia ao governo brasileiro, mas teve o pedido negado em 2012.