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Bolsonaro usa a própria doença para normalizar pandemia

Jair Bolsonaro (sem partido) posta foto tomando café da manhã - Reprodução/Twitter
Jair Bolsonaro (sem partido) posta foto tomando café da manhã Imagem: Reprodução/Twitter
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

08/07/2020 13h55Atualizada em 08/07/2020 14h32

O presidente Jair Bolsonaro acertou ao admitir rapidamente que havia contraído covid-19. Tratou com transparência diferente o último teste em relação aos três anteriores, nos quais usou nomes falsos e só os divulgou após ordem judicial. A saúde do presidente da República tem interesse público.

Mas a boa conduta durou pouco, porque Bolsonaro voltou a ser o que é: o mais irresponsável líder de um país democrático a lidar com o coronavírus. Nesta terça, tirou a máscara ao contar aos repórteres de três televisões a quantas andava o seu estado de saúde. Fez propaganda nas redes sociais da hidroxicloroquina. E tuítou mentiras em série na manhã desta quarta.

Num fio com quatro posts, ele escreveu na rede social que "todas as medidas de isolamento adotadas por governadores e prefeitos sempre visaram retardar o contágio enquanto os hospitais se preparavam para receber respiradores e leitos de UTIs".

Falso.

As medidas de isolamento tinham o objetivo de impedir a difusão da epidemia, reduzindo a transmissão e contendo a doença, como fizeram, por exemplo, a Coreia do Sul e a Alemanha. "Retardar o contágio" é uma forma de dizer que contrair covid-19 seria inevitável. Não é. Usar máscara, manter o distanciamento social e lavar as mãos com frequência são formas efetivas de prevenção.

O presidente da República mente, distorce o objetivo da quarentena, que é salvar vidas, e incentiva o contágio, o que pode deixar sequelas para quem se recupera.

Ganhar tempo para preparar a rede hospitalar era um objetivo secundário da quarentena. Isso foi feito por Estados sem um plano nacional para aparelhar melhor nossos médicos, enfermeiros e hospitais. Bolsonaro terceirizou essa responsabilidade para governadores, tentando jogar nas costas deles o desgaste político de ordenar que as pessoas ficassem em casa e que negócios fossem fechados.

O Brasil realizou uma quarentena boicotada criminosamente pelo presidente da República. Agora, governadores que não aguentam mais a pressão de empresários pela reabertura estão prevendo uma retomada da economia no momento em que a pandemia piora no Brasil. Não tem chance de dar certo. Esse filme já foi visto nos EUA.

Bolsonaro disse que o "governo atendeu a todos com recursos e meios necessários" e criou "meios para preservar empregos" com um auxílio de "cinco parcelas de R$ 600,00" para 60 milhões de pessoas.

Falso.

O Ministério da Saúde, comandado por um general que desconhece a área, não consegue gastar os recursos liberados para combater a covid-19. Houve maquiagem de dados, uma atitude típica de ditaduras que levou veículos de imprensa a montar um pool para apurar os números da tragédia.

A insensibilidade social crônica de Bolsonaro e do ministro da economia, Paulo Guedes, previa um auxílio de R$ 200,00 durante três meses. Foi o Congresso, com ação decisiva da oposição, que elevou o valor para R$ 600,00 e ampliou o número de parcelas.

Raridade, foi possível encontrar uma verdade nos quatro tuítes de Bolsonaro: "Nenhum país do mundo fez como o Brasil". Fato. Nem os Estados Unidos, governado por outro negacionista da ciência, conseguiram superar a gestão assassina de Bolsonaro na pandemia. Até Donald Trump diz que o Brasil seguiu um caminho diferente para pior.

No mesmo tuíte, Bolsonaro delirou no tradicional português capenga, que está corrigido na seguinte citação: "Preservamos vidas e empregos sem propagar pânico, o que também leva à depressão e mortes. Sempre disse que o combate ao vírus não poderia ter um efeito colateral pior do que o próprio vírus".

Neste ponto, houve uma mistura de despreparo e piada. Bolsonaro falar em preservar vidas só pode ser brincadeira diante do seu histórico de mercador da morte. A economia só vai melhorar quando houver um controle efetivo da pandemia. Os números do Brasil retratam uma situação de fora de controle. Este é o pior "efeito colateral" para e economia. Como diria James Carville, "é o vírus, estúpido".

No último dos quatro tuítes, Bolsonaro reiterou o crime de responsabilidade que vem cometendo há meses. Exercendo ilegalmente a medicina, prescreveu a hidroxicloroquina ao sugerir que está "muito bem com seu uso". Até agora, os estudos científicos apontam elevação de risco cardíaco para quem recorre à droga a fim de combater o coronavírus. Tomar hidroxicloroquina para covid-19 pode matar. Aceitar conselho médico de Bolsonaro é prejudicial à saúde.

Apesar de ter adotado um perfil mais discreto após a prisão de Fabrício Queiroz, atitude de quem tem medo da polícia e da Justiça, Bolsonaro continua a ser o genocida de sempre. Comete crimes comuns e de responsabilidade na cara da sociedade civil, do Congresso, da Procuradoria Geral da República e do Supremo Tribunal Federal.

Enquanto ele estiver no poder, o país não conseguirá organizar uma resposta efetiva ao coronavírus. Bolsonaro está usando a própria doença para normalizar a covid-19. Mantê-lo no poder é assistir como cordeirinhos à normalização da pandemia no Brasil, tornando-a uma doença crônica que continuará a destruir a vida de gerações e aprofundar a nossa tragédia social e econômica.