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Kennedy Alencar

Biden promete encerrar período de "trevas" de Trump e "salvar democracia"

Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

21/08/2020 00h45

O candidato democrata à Presidência, Joe Biden, disse que chegou a hora de encerrar um capítulo de "trevas" na história dos Estados Unidos e "salvar democracia" do país. "Talvez a História venha a dizer que o fim deste capítulo de trevas americanas começou nesta noite, com amor e esperança e luz juntos numa batalha pela alma da nação", afirmou Biden.

Ele apostou num figurino anti-Trump. Marcar diferenças com o atual presidente dominou todo o discurso de Biden, que disse na noite desta quinta que aceitava com humildade a indicação democrata para disputar a Casa Branca em 3 de novembro. Segundo ele, chegou "o momento de fazer esperança e história rimarem".

"Nos momentos mais difíceis [da história americana], tivemos nossos maiores progressos", declarou o democrata ao encerrar a convenção do partido, que ocorreu entre segunda e quinta. Ele discursou de Wilmington, onde mora no estado de Delaware. A convenção aconteceu em Milwaukee, Wisconsin.

Biden contou que um ataque de supremacistas brancos há três anos em Charlottesville, na Virgínia, foi o "chamado à ação" para que decidisse se candidatar. Afirmou que aprendeu com o pai que "silêncio é cumplicidade".

De acordo com o democrata, é hora de extirpar o "racismo sistêmico" dos EUA, o que seria um desafio da sua geração. Prometeu criar um seguro-saúde acessível a todos os americanos, dizendo que se trata de um direito "sagrado". Afirmou que cobrará mais impostos dos mais ricos e das grandes corporações. "Vamos construir de novo e melhor [nossa economia]" tem sido o seu bordão.

Tragédia da covid não precisaria ser tão ruim nos EUA, diz Biden

Em relação à pandemia, ele prometeu ter uma estratégia nacional no primeiro dia, com articulação com os Estados, aumento de testes em larga escala e uma ordem federal tornando obrigatório em todo o país o uso de máscara em público.

Afirmou que Trump "falhou em nos proteger" do coronavírus" e que o presidente "não assume responsabilidade e se recusa a liderar" o combate à covid-19. "A tragédia que vivemos hoje não precisaria ser tão ruim." Afirmou que, se o republicano for reeleito, "casos e mortes [de covid-19] se manterão em patamar muito alto".

Biden disse que caráter, decência e honestidade estavam em jogo nas urnas. Disse que o país vive um "tempo de incrível perigo, mas também de possibilidades". Segundo ele, é hora de um "ponto de inflexão" na história americana. "Temos um grande propósito como nação. Abrir as portas da oportunidade para todos os americanos para salvar nossa democracia, para ser uma luz para o mundo mais uma vez."

Biden se mostrou um anti-Trump o tempo todo. "É um dos momentos mais difíceis que os EUA enfrentam", disse. "Serei um aliado da luz, não da escuridão. (...) "Vamos escolher a esperança em vez do medo."

Ele prometeu que trabalhará duro para quem não votar nele e não apenas para seus eleitores. Sugeriu que o presidente republicano liga apenas para sua base de apoio. Biden disse que não é momento para divisão partidária, mas de união.

Na cena internacional, Biden defendeu reaproximação com líderes europeus aliados que foram hostilizados por Trump. Disse que responderá com dureza à suspeita de que a Rússia pagou ao Taleban recompensa para matar soldados americanos no Iraque.

Homem de família

As tragédias que marcaram a vida de Biden foram narradas pouco antes do discurso dele. As perdas da primeira mulher e de dois filhos teriam forjado um político mais empático e humano, algo que contrasta com o estilo agressivo do presidente Donald Trump.

Hunter, filho do primeiro casamento de Biden, participou com a irmã, Ashley, de um jogral para ressaltar qualidades do pai. Hunter foi acusado de fazer lobby usando o prestígio de Joe Biden em favor de uma empresa ucraniana para a qual trabalhou. Ambos negaram malfeitos.

Ashley é filha da união com Jill, com quem se casou após a viuvez. A primeira mulher de Biden, Neilia, morreu num acidente de carro em 1972. A filha Naomi, com apenas treze meses, também faleceu na época. Beau e Hunter, filhos de Neilia que sobreviveram ao acidente, foram criados por Jill.

"Meu pai, meu herói, Joe Biden", disse Beau, na reprise de um discurso feito na convenção de 2012. Naquele ano, Joe Biden seria novamente indicado para vice de Barack Obama.

A memória do filho é sempre invocada por Biden em seus pronunciamentos. Não foi diferente ontem, quando falou pela primeira vez como candidato democrata. Ele tentou disputar em 1998 e 2008, mas perdeu a corrida interna no partido. "Beau me inspira todos os dias", afirmou Biden.

Veteranos de guerra

A temática dos veteranos de guerra é sensível no EUA. Republicanos costumam ter mais afinidade com os militares. Democratas que foram a conflitos, como a senadora por Illinois Tammy Duckworth, que perdeu as pernas na Guerra do Iraque, deram depoimentos de que Biden combaterá o desemprego entre os veteranos e será um comandante-em-chefe de verdade. Ela disse que Trump não tem capacidade para tal função.

Beau, filho de Biden que também lutou na Guerra do Iraque e morreu em 2015 aos 46 anos com câncer no cérebro, foi citado diversas vezes ao longo do programa. Pete Buttigieg, ex-prefeito de South Bend (Indiana) que disputou a indicação presidencial democrata, fez homenagem a Beau, o filho com quem Joe Biden tinha mais afinidade política. Buttigieg serviu no Afeganistão, a mais longa guerra americana.

Foi boa a sacada a participação de Edward Good, 95 anos, veterano da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Coreia. Ele votou em Trump em 2016, mas agora apoia Biden. Disse que Trump é "o pior presidente" que o país já teve.

Religião e política

A fé de Biden foi lembrada por oradores na Convenção Nacional Democrata. Num país conservador, o democrata, que é católico, destaca essa característica como fundamental para governar, o que é uma mistura algo indevida entre religião e poder.

Essa fé foi citada como uma forma que ele encontrou para superar tragédias pessoais, como a perda da primeira mulher e de dois filhos. O contexto é de alguém forjado na dor e que encontrou propósitos ao seguir na vida pública e ao reconstruir a família. Pega bem perante boa parte do eleitorado, mas, no caso de Biden, é um sentimento que soa mais genuíno do que cálculo político.

O tributo a John Lewis, um dos líderes do movimento pelo direito civis dos anos, foi outro ponto alto da convenção democrata. Justa homenagem. Lewis, que exerceu mandato na Casa dos Representantes durante três décadas, é um dos nomes mais importantes da história recente dos EUA. É símbolo do eleitorado negro, que está fechado com Biden e será fundamental caso ele vença.

A presença da senadora Kamala Harris como vice na chapa democrata é consequência de uma luta que Lewis e mulheres negras travaram.

Humor democrata

A atriz e comediante Louis-Dreyfus, estrela do seriado "Seinfeld", foi a apresentadora da última noite da Convenção Nacional Democrata. "Estou orgulhosa de ser uma mulher desagradável, bem desagradável", disse Julia Louis-Dreyfus, invocando um jeito frequente de Trump se referir a Kamala e mulheres fortes que o incomodam, como as repórteres que lhe dirigem questões pertinentes.

O tom leve marcou alguns momentos do programa. Foi divertida a imitação de Trump feita pela comediante Sarah Cooper, satirizando um discurso do presidente cheio de mentiras sobre os perigos do voto via correio. Trump bombardeia o voto postal. Alega que haverá fraude, o que é falso levando em conta o histórico eleitoral dessa modalidade de voto nos EUA.

A Convenção Nacional Republicana começará na segunda-feira em Charlotte, Carolina do Norte. Trump também discursará virtualmente. Ele pretende falar da Casa Branca na próxima quinta.