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Kennedy Alencar

Biden sobe no ringue nas redes sociais para atacar Trump em temas sensíveis

O democrata Joe Biden, candidato à presidência dos Estados Unidos em 2020 - Angela Weiss/AFP
O democrata Joe Biden, candidato à presidência dos Estados Unidos em 2020 Imagem: Angela Weiss/AFP
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

27/10/2020 20h33

O candidato do Partido Democrata à Casa Branca, Joe Biden, divulgou na reta final da campanha um vídeo de um minuto nas redes sociais a respeito de assuntos sensíveis para o presidente Donald Trump. Biden foi para o ataque, movimento que normalmente é Trump quem faz na internet.

"Aqui é Joe Biden. Vidas Negras Importam. Ponto. Não tenho medo de dizer isso. Desigualdades têm de ser enfrentadas de frente. Afro-americanos precisam de um tratamento justo sobre oportunidades econômicas, plano de saúde, justiça criminal, educação e habitação", diz o democrata, na peça de campanha.

Trump tem tentado demonizar o "Black Lives Matter" ("Vidas Negras Importam", em português), associando o movimento a manifestantes violentos e perigosos. O republicano procura retratar Biden com refém de radicais que colocariam em perigo o "american way of life" ("modo de vida americano")

No novo vídeo, o democrata pregou exatamente o oposto de Trump, sem ficar flertando meio em cima do muro com as teses que o adversário defende. Biden busca aumentar o engajamento dos eleitores em geral na reta final, especialmente o voto negro. Engajamento é fundamental para vencer uma eleição americana. Barack Obama, Ronald Reagan, Richard Nixon e Bill Clinton são exemplos de presidentes eleitos nos últimos 50 anos graças a uma campanha que atraiu e engajou fortemente os eleitores. O próprio Trump conseguiu isso em 2016 contra Hillary Clinton.

Biden também abordou o calcanhar de aquiles de Trump: a pandemia de coronavírus, que recrudesce no país. Ele reafirma que ouvirá os cientistas e controlará a covid-19. O republicano tem tentado colar no democrata o carimbo de que ele seguirá conselhos dos cientistas para fechar a economia, o que prejudicaria as empresas e a criação de empresas.

Na peça de campanha, o democrata faz propostas como elevar o salário mínimo para US$ 15 a hora e manter o Obamacare, legislação que prevê planos de saúde mais acessíveis financeiramente e que asseguram cobertura para doenças preexistentes.

Na lista de promessas econômicas, ele diz que criará uma linha de crédito de US$ 100 bilhões para pequenos negócios cujos donos sejam de minorias. Afirma que refinanciará dívidas estudantis, questão que tem apelo para a classe média em geral e o eleitorado negro em particular.

Biden promete "erradicar o racismo sistêmico" no sistema judicial e descriminalizar o consumo da maconha, entre outros temas que elevam o encarceramento de negros em proporção maior do que de brancos.

Moderado, Biden tem um programa de governo que pode ser considerado o mais progressista de um candidato na história recente dos EUA.

Aos 77 anos, ele defende uma abordagem ousada sobre o uso da maconha e dedicou parcela expressiva de seu plano de governo à área ambiental, o que é resultado de sua aliança com os setores mais à esquerda e mais jovens do Partido Democrata.

Apesar de pontos de interesse geral, essa peça de propaganda de Biden tem foco nos eleitores negros, segmento que o democrata tenta estimular a comparecer às urnas em proporção maior do que em pleitos anteriores. A estratégia vem funcionando. Quase 70 milhões de americanos já votaram antecipadamente (via correio ou em seções eleitores já abertas nos estados). O voto nos EUA é facultativo, o que torna fundamental mobilizar a sua base de eleitores.

"Podemos consertar isso, mas não posso fazer sem você. Por isso, peço o seu voto", diz Biden ao final, procurando aumentar o engajamento dos eleitores.

O vídeo é uma espécie de soco direto no queixo de Trump, porque é o presidente dos EUA que costuma usar as redes sociais para fazer ironias, como chamar Biden de "dorminhoco Joe", ou simplesmente mentir a respeito do democrata.

Trump disse que, numa entrevista nesta semana, Biden o chamou de "George", insinuando que não se sabia se ele referia ao Bush pai ou ao Bush filho. O entrevistador se chamava George López. O democrata gaguejou e interrompeu uma frase citando o nome de George quando queria dizer que o país não suportaria mais quatro anos de Trump.

Além do vídeo de campanha, Biden postou no Twitter uma promessa firme a respeito de pessoas negras mortas neste ano devido à violência policial. Na segunda, na Filadélfia, no estado da Pensilvânia, mais um homem negro foi executado por policiais em 2020.

"Os nomes de George Floyd e de Breonna Taylor e de Jacob Blake não serão esquecidos em breve. Não por mim. Não por nós. Não por este país. Eles vão inspirar uma nova onda de Justiça nos Estados Unidos", afirmou Biden, num tuíte às 15h40 desta terça-feira.

Esse Biden "afirmativo", disposto a subir no ringue com Trump, é uma novidade da estratégia eleitoral a uma semana das eleições de 3 de novembro. Em vez de moderação, o democrata optou por marcar ainda mais claramente as suas diferenças com o republicano. Ele diz que "caráter" está em julgamento nas urnas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.