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Kennedy Alencar

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

País viverá clima de confronto até eleições; democratas devem disputar ruas

3.jul.2021 - Manifestantes participam de atos contra o governo de Jair Bolsonaro em Brasília - Hanrrikson de Andrade/UOL
3.jul.2021 - Manifestantes participam de atos contra o governo de Jair Bolsonaro em Brasília Imagem: Hanrrikson de Andrade/UOL
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

06/09/2021 14h30

Os democratas não devem alimentar ilusões sobre o dia seguinte às manifestações golpistas de 7 de Setembro. A coisa só vai piorar até as eleições do ano que vem.

Bolsonaro sabe que perderá no voto e que a sua chance de permanecer no poder depende de um golpe de Estado. Só assim crimes praticados por ele e a sua família poderão ser acobertados.

Com a quantidade de crimes comuns e de responsabilidade cometidos até agora, há farta munição para a Justiça mandar Bolsonaro à prisão. Os filhos têm uma vida patrimonial inexplicável perante a polícia e o Ministério Público.

Nesse contexto, a única estratégia do presidente é alimentar a sua base fascista, com foco no agronegócio, evangélicos, militares e milicianos. O candidato a ditador cometerá nesta terça-feira mais um crime de responsabilidade para tentar assustar as instituições e a sociedade civil.

Bolsonaro dedicou as últimas semanas a mobilizar caravanas de apoiadores para os atos de Brasília e São Paulo. Quer imagens de multidões nas duas cidades para arrotar um poder popular que não tem.

As pesquisas mostram queda da popularidade e provável derrota eleitoral em outubro do ano que vem. No entanto, Bolsonaro planeja vender a ideia de que os números seriam falsos e de que ele teria o povo ao seu lado. Fake news.

O roteiro é o mesmo seguido por Donald Trump, que perdeu as eleições de 2020, não aceitou os resultados e ainda tentou dar um golpe nos EUA. O americano fracassou. A Justiça nem os militares de lá caíram na lorota golpista.

O plano autoritário de Bolsonaro também tende a fracassar. No Brasil, não há condições objetivas de sucesso devido ao desastre na economia, na política, na área social, no meio ambiente e na pandemia.

A economia, que já andava ruim, tende a piorar ainda mais com toda essa instabilidade golpista. O desemprego está nas alturas. Gasolina, botijão de gás e alimentos básicos estão custando o olho da cara. Crise hídrica e crise elétrica chegaram enquanto a pandemia ainda não se foi. Bolsonaro e seus ministros são incapazes de oferecer soluções para tantos problemas.

Logo, só resta ao genocida criar confusão e ameaçar dar um golpe com suporte dos setores mais atrasados do país, incluindo militares gulosos por acúmulos de rendimentos com cargos civis, pastores evangélicos que lucram com a fé do povo e empresários predatórios sem compromisso com os valores básicos de uma sociedade democrática.

A resposta política correta seria o Congresso aprovar o impeachment do presidente ou a Procuradoria Geral da República apresentar uma denúncia contra Bolsonaro. Mas é ingênuo apostar na lealdade à Constituição de figuras como o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e o procurador-geral da República, Augusto Aras.

Aqueles que ainda apelam a uma falsa equivalência entre Bolsonaro e Lula deveriam pensar se é mesmo viável uma terceira via nessa atmosfera de guerra entre civilização e barbárie. Uma união de todos os democratas contra a ameaça autoritária parece ser mais realista.

Depois deste 7 de Setembro, o Brasil viverá em clima de confronto até as eleições de outubro de 2022. A guerra política será parte da paisagem. Nesse cenário, os democratas terão de disputar a política, as redes sociais e as ruas com Bolsonaro e seus fascistas. Não haverá outra forma de salvar a democracia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL