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Kennedy Alencar

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Recuperação limitada e rejeição de Bolsonaro podem eleger Lula no 1º turno

Bolsonaro e Lula: pesquisa Genial/Quaest aponta petista com 46% e possibilidade de vitória em 2/10 - Adriano Machado/Reuters e Pedro Ladeira/Folhapress
Bolsonaro e Lula: pesquisa Genial/Quaest aponta petista com 46% e possibilidade de vitória em 2/10 Imagem: Adriano Machado/Reuters e Pedro Ladeira/Folhapress
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Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

11/05/2022 11h30Atualizada em 11/05/2022 14h44

A saída de Sergio Moro da disputa presidencial carreou votos do ex-juiz para o presidente Jair Bolsonaro. O uso sem pudores da máquina pública também contribuiu para que Bolsonaro conseguisse melhorar em alguns pontos a sua intenção de voto para presidente da República.

No entanto, a narrativa preponderante na imprensa de que a diferença entre o ex-presidente Lula e Bolsonaro vem caindo sistematicamente é conversa para boi dormir. Esse papo furado é alimentado pelos ministros palacianos, que recorrem a algumas pesquisas que não merecem crédito. O fato é que a "recuperação" de Bolsonaro encontra obstáculos para tirar o favoritismo eleitoral do ex-presidente petista.

Lula ainda mantém a possibilidade de vencer no primeiro turno (2/10), apesar de esse cenário ser hoje menos provável do que um desfecho na segunda etapa (30/10).

A primeira razão a alimentar a chance de vitória na primeira etapa é o caráter plebiscitário crescente da corrida presidencial. A polarização entre Lula e Bolsonaro vem se fortalecendo ao longo da disputa. Não o contrário.

Numa eleição plebiscitária, a rejeição passa a ser principal fator para definir a vitória. A pesquisa Quaest, contratada pela Genial Investimentos e publicada nesta quarta, mostra que Bolsonaro tem 59% de rejeição. A taxa dos que não votariam em Lula é de 43%, 16 pontos percentuais de diferença.

A rejeição a Bolsonaro, portanto, é o principal fator que contribui para a possibilidade de vitória de Lula na primeira etapa. Não há indicação de que essa rejeição possa cair significativamente. O atual presidente deverá ser o primeiro a perder a reeleição no Brasil.

O expediente foi criado em 1997 para ser aplicado na eleição de 1998 e favorecer o então presidente Fernando Henrique Cardoso. FHC se reelegeu em 1998. Lula conquistou um segundo mandato em 2006. Dilma Rousseff foi reconduzida em 2014. Bolsonaro tenta novo mandato em meio a uma enorme crise econômica, tendo conduzido um governo real desastroso. Difícil enxergar chance de vitória para o atual ocupante do Palácio do Planalto.

A dinâmica da eleição é outro fator que tende a favorecer Lula. Numa disputa plebiscitária, o apelo ao voto útil poderá beneficiar o petista na reta final do primeiro turno da eleição. A chamada terceira via naufragou. Os candidatos em jogo não fazem sombra a Lula ou Bolsonaro. Logo, o eleitor pode querer liquidar a fatura da polarização já em 2 de outubro.

A saída do União Brasil da articulação com MDB, PSDB e Cidadania para lançarem um candidato comum enfraqueceu a possibilidade de quebra da polarização. O União Brasil prestou um serviço a Bolsonaro ao retirar seu fundo partidário e tempo de TV de uma candidatura de quatro legendas.

Na largada, o União Brasil matou a pré-candidatura do ex-juiz Sergio Moro ao filiá-lo ao partido e relegá-lo a uma disputa para deputado federal por São Paulo. Depois, o União Brasil deixou MDB, PSDB e Cidadania na mão ao optar pela candidatura de Luciano Bivar, que não tem a menor competitividade. Assim, o União Brasil, fusão do antigo partido de Bolsonaro (PSL) com o DEM, contribuiu para fortalecer a polarização e retirar de campo uma ameaça mínima ao atual presidencial.

Na atual dinâmica eleitoral, seria mais fácil um candidato da terceira via tirar Bolsonaro do segundo turno. Afinal, todos têm uma característica em comum: oferecem um programa de governo que pode ser resumido como bolsonarismo sem Bolsonaro. A exceção é Ciro Gomes, que não pode ser colocado no balaio dessa terceira via que a maioria da imprensa ama.

Ciro (PDT) é o único candidato que representa uma alternativa concreta a Lula e Bolsonaro, mas enfrenta dificuldade para captar votos suficientes para chegar ao segundo turno. Suas ideias têm mais semelhança com as de Lula, mas a entrada do petista na corrida presidencial bloqueou o espaço para Ciro crescer. A tentativa de se comunicar com o eleitorado de Bolsonaro também é difícil para o pedetista. Candidatos como Moro, Simone Tebet e João Doria teriam mais facilidade para falar a língua dos apoiadores de Bolsonaro.

Por último, votos brancos e nulos, que são excluídos dos válidos, acabam contribuindo para aquele que está em primeiro lugar nas pesquisas. Nesse contexto, a intenção atual de voto de Lula pode ser suficiente para que ele tenha mais votos do que a soma dos seus adversários.

A pesquisa Quaest-Genial traz uma boa notícia para o ex-presidente ao apontar chance de vitória do petista no primeiro turno.

Segundo o levantamento, Lula tem 46% de intenção de voto contra 29% de Bolsonaro, uma diferença de 17 pontos percentuais a favor do petista. Ciro apresenta 7%. João Doria (PSDB), 3%. André Janones (Avante), 3%. Simone Tebet (MDB) e Felipe D'Ávila (Novo) tiveram 1% cada um. E Luciano Bivar (União Brasil) não pontuou.

Bolsonaro e os demais candidatos somam 44%. Levando em conta a margem de erro de dois pontos percentuais da pesquisa, haveria empate técnico. Ou seja, é difícil, mas não é impossível que o petista se eleja na primeira etapa.

Se Lula parar de errar e executar com afinco a estratégia de atacar Bolsonaro nos seus pontos fracos, o desastre econômico e a ameaça à democracia, o petista terá chance real de evitar uma disputa em segundo turno contra um candidato a ditador disposto a tudo para não largar o osso.