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Leonardo Sakamoto


"Índio tá evoluindo", diz Bolsonaro ao demonstrar que está regredindo

Presidente Jair Bolsonaro em transmissão ao lado do ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes - Reprodução/Facebook
Presidente Jair Bolsonaro em transmissão ao lado do ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes Imagem: Reprodução/Facebook
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

23/01/2020 23h47

"O índio mudou, tá evoluindo. Cada vez mais o índio é um ser humano igual a nós", afirmou o presidente da República Federativa do Brasil, em vídeo divulgado nas redes sociais, na noite desta quinta (23).

Indígenas sempre foram seres humanos iguais aos demais. Quem, por outro lado, revela-se cada vez mais um ser humano pior é o próprio Jair Bolsonaro. A ponto de nos fazer acreditar que ele é parte de uma espécie de elo perdido do Homo Sapiens, o Homo Bolsonaris.

Em seu mundo limitado, essa espécie surreal, o Homo Bolsonaris, se vê como a linha de chegada do progresso: uma variação racista, machista, miliciana, filhocrata e despótica dos semoventes que habitam este planeta.

O Homo Bolsonaris acredita que determinados povos são mais atrasados do que outros simplesmente por adotarem outro modo de vida e terem cultura diferente. Do alto do seu maniqueísmo, não consegue compreender a complexidade da vida em sociedade. Para ele, quando um indígena assiste à TV ou usa um celular deixa de ser indígena e precisa ser acudido. Ou melhor, salvo.

O Homo Bolsonaris quer ser messias. Por isso, acredita que é seu dever pegar esses povos pelas mãos e guia-los para o futuro - a sua visão estreita e monocromática de futuro.

O Homo Bolsonaris dilapida o amanhã de seus netos em nome do lucro rápido e da ignorância de seus apoiadores. O irônico é que os territórios indígenas contam com as mais altas taxas de proteção de vegetação nativa, garantindo o futuro das próximas gerações.

A declaração de Bolsonaro sintetiza sua visão de mundo, dotada de um anacronismo atávico, que traz consigo um conceito de progresso civilizacional abandonado há muito tempo. O problema é que o presidente entende como desvio, atraso ou aberração qualquer modo de vida diferente do dele.

O que o torna uma pessoa bastante perigosa.

Leonardo Sakamoto