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Leonardo Sakamoto


Bolsonaro apostou seu mandato que o coronavírus será menos letal no Brasil

18.mar.2020 - O presidente Jair Bolsonaro, ao lado de vários ministros, durante coletiva de imprensa para falar sobre medidas do governo pra contar a epidemia de Coronavírus, no Palácio do Planalto. Ao lado dele os ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta e da economia, Paulo Guedes. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress, PODER) - Pedro Ladeira/Folhapress
18.mar.2020 - O presidente Jair Bolsonaro, ao lado de vários ministros, durante coletiva de imprensa para falar sobre medidas do governo pra contar a epidemia de Coronavírus, no Palácio do Planalto. Ao lado dele os ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta e da economia, Paulo Guedes. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress, PODER) Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

24/03/2020 22h23

Há varias razões para o pronunciamento irresponsável que Jair Bolsonaro proferiu, em cadeia nacional de rádio e TV, na noite desta terça (24). Todas apontam que ele, mesmo em uma mortal pandemia global, pensa apenas em sua sobrevivência política. Com o discurso, o presidente apostou o seu mandato que o coronavírus será menos letal no Brasil. O povo? Que morra.

Bolsonaro menosprezou a gravidade da doença, chamando-a arrogantemente de "gripezinha" e "resfriadinho". Culpou a imprensa de "espalhar a sensação de pavor", apesar de ser graças a ela que a população está sendo alertada sobre os riscos e formas de prevenção. Atacou governadores que estão organizando ações de contenção ao vírus, criticando o fechamento de escolas e do comércio. Conclamou os cidadãos a "voltar à normalidade", saindo do isolamento social - forma de retardar a propagação do coronavírus.

O discurso não soou como aquele esperado do líder de uma democracia. Parecia o de alguém que - incapaz de sentir empatia por seu semelhante - dedica-se a atacar pessoas e instituições que tentam salvar vidas. Por isso, após esta noite, Bolsonaro se torna corresponsável pelas mortes que ocorrerem devido ao coronavírus.

Mas há também uma lógica bizarra nesse processo, que transforma a vida de milhares de pessoas em peças de jogo político.

O presidente atiçou a sua legião de fãs, que instantaneamente, reforçou a defesa violenta de seu líder nas redes sociais. Como Bolsonaro está isolado, acredita que um grupo que perfaz entre 12% e 15% da população, segundo pesquisas de opinião, e que saltaria do penhasco se ele ordenasse, sairá às ruas e pegará em armas para defendê-lo.

Também alinhou-se ao discurso do naco insensível e egoísta do empresariado, que acredita que a morte de milhares de brasileiros é um preço pequeno a pagar diante da possibilidade de recessão como podem ser vistas pelas declarações de personagens da publicidade, do comércio, da gastronomia. Naco que vem lhe dando respaldo, bancando seus disparos de WhatsApp e, em troca, vê sua pauta sendo defendida.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro usou o pronunciamento para jogar no colo dos governadores João Doria, de São Paulo, e Wilson Witzel, do Rio de Janeiro, a responsabilidade pela perda de empregos que ocorrerá com as necessárias medidas de isolamento social.

Apesar de ser notório, desde janeiro, que a pandemia chegaria aqui e provocaria o caos, o ministro da Economia, Paulo Guedes, não preparou um plano de contingência. Um simulacro disso vem sendo divulgado agora, a conta-gotas, com liberação insuficiente de recursos para proteger trabalhadores informais e desempregados e a ausência de vontade de bancar os salários dos que contam com carteira assinada e ficarão parados. Em outras palavras: era para milhões estarem recebendo ajuda do governo federal, neste momento, em que começa a quarentena em grandes cidades. Era.

Restou a Bolsonaro, que não preparou o país para o que viria e que sofrerá as consequências de uma profunda recessão e de um salto no já alto desemprego, apostar tudo no discurso de que o "coronavírus" vai ser uma marolinha por aqui e que os danos à economia serão causados exatamente pelas ações de governadores e da imprensa.

Se o vírus for menos letal, ele cantará vitória sozinho. Mas o mais irônico é que se as ações tomadas por políticos, empresários e a sociedade civil preocupados com o coronavírus derem certo e conseguirmos conter a virulência da doença, Bolsonaro também buscará capitalizar isso como vitória de sua narrativa, de que tudo era uma "fantasia".

Na hipótese provável - e triste - de termos um número considerável de óbitos, ele tem o mandato cancelado. Se não formalmente, ao menos na prática.

Em qualquer dos cenários traçados por Bolsonaro, contudo, é o povo, principalmente o mais pobre, que vai perder. Quer dizer, morrer.

Ele, sinceramente, não se importa.

O discurso do presidente serviu também para lançar mais uma cortina de fumaça no rastro de incompetência e de enganação que ele e parte de sua equipe deixaram ao longo desta crise - com nobres exceções, como o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. A última incompetência foi a divulgação de uma Medida Provisória que permitia a suspensão de salários dos trabalhadores por quatro meses. E a principal acusação de enganação é o caso de seus testes para coronavírus. Deram negativo, segundo ele - que se nega a mostrá-los mesmo após 23 membros de sua comitiva aos Estados Unidos terem testado positivo. Sim o presidente pode ter sido um dos vetores da doença no Distrito Federal.

Bolsonaro, enfraquecido, sabe que a abertura de um processo de impeachment ou de afastamento por insanidade pode ajuda-lo a reunir apoio através de um longo processo de vitimização. Acredita ser possível copiar Donald Trump, seu ídolo. Também sabe que as lideranças no Congresso Nacional tem evitado levar adiante essa saída exatamente por conta dessa possibilidade. E, colocando à prova a paciência ou a covardia das instituições, vai se aproveitando da posição de franco-atirador.

O discurso de hoje, ao som de um panelaço ensurdecedor, mostra que não temos mais presidente da República, mas um parasita institucional. A questão é que esse parasita montou trincheiras no Palácio do Planalto e promete resistir usando as armas que forem necessárias, apostando alto com a saúde e a dignidade da população.

Leonardo Sakamoto