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Por apoio de Bolsonaro, Crivella quer abrir comércio com covid em ascensão

10.abr.2020 - O prefeito Marcelo Crivella (d) e o senador Flávio Bolsonaro conhecem as instalações das obras do hospital de campanha do RioCentro, no Rio de Janeiro  - SAULO ANGELO/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
10.abr.2020 - O prefeito Marcelo Crivella (d) e o senador Flávio Bolsonaro conhecem as instalações das obras do hospital de campanha do RioCentro, no Rio de Janeiro Imagem: SAULO ANGELO/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

22/05/2020 13h51

Resumo da notícia

  • Aumento de casos e mortes por covid-19 vai na contramão da declaração do prefeito do Rio de que reabrirá o comércio em breve.
  • Dados da Fiocruz mostram que o município, assim como o país, mantém uma tendência de aumento da infecção, sem previsão para estabilização.
  • Políticos apontam que ação de Crivella que agrada Bolsonaro e empresários está relacionada à busca de apoio à sua reeleição este ano.

A afirmação do presidente Jair Bolsonaro e do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, de que há condições para que o comércio reabra em breve, não encontra respaldo científico. É o que apontam dados sobre casos e mortes relacionados à covid-19 na capital fluminense, organizados pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para o UOL.

Pelo contrário, a avaliação dos pesquisadores é de que o município e o país seguem a tendência ascendente sem previsão para a estabilização da pandemia. Políticos cariocas ouvidos pela coluna afirmam que a promessa de reabertura neste momento é parte da campanha do prefeito pelo apoio do presidente à sua reeleição.

"Acho que a gente está na iminência de abrir, com responsabilidade, é lógico, o comércio", afirmou Bolsonaro nesta quinta (21). Ele havia se reunido com Crivella, que anunciou, também ontem, que deve começar a reabertura do comércio de forma escalonada nos próximos dias, submetendo um plano elaborado com a ajuda de empresários a um "conselho científico".

"Estamos no estudo da retomada. Se Deus quiser, nos próximos dias, vamos começar a reabrir as coisas", disse o prefeito. De acordo com ele, houve uma queda de 80% nas aglomerações e na redução no número de passageiros em ônibus, a população está usando máscaras e a contaminação está caindo, sinalizando condições para o retorno às atividades comerciais e de serviços.

Mas não é o que mostram os dados da Fiocruz. Na 14ª semana da pandemia de coronavírus, a capital fluminense registrou 493 casos. Na 15ª (923), 16ª (1154), 17ª (1422), 18ª (1967), 19ª (4031), 20ª (1816). Na 21ª semana, que começou no último dia 17 e ainda não terminou, já temos 4771 casos. Foram 2531 casos nesta quinta e 1088 na quarta.

O número de óbitos também não indica para uma diminuição. Na semana 14, foram 29 mortes, na 15 (60), 16 (139), 17 (130), 18 (236), 19 (489), 20 (659) e, na semana 21, que segue em aberta, já foram 498.

Rio está longe da situação que permitiria abertura, diz pesquisador

"Pelos resultados, está longe de termos uma estabilização", afirma Diego Xavier, pesquisador do Laboratório de Informação em Saúde do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde da Fiocruz. "Nesse sentido, é muito arriscado o Rio e o país tomarem qualquer medida de relaxamento."

"Casos de hoje são resultado de políticas de uma ou duas semanas atrás. Os mortos podem ter sido resultado de uma infecção de um mês atrás. Portanto, novas medidas adotadas agora podem ter consequências graves daqui a um mês", alerta o sanitarista Christovam Barcellos, um dos responsáveis pelo observatório de covid-19 da Fiocruz.

Eleições no horizonte

O anúncio de reabertura mesmo com números ascendentes pode estar relacionado aos interesses políticos do prefeito, segundo ouvidos pela coluna.

"Bolsonaro nega a pandemia. E Crivella tenta se adaptar às loucuras de Bolsonaro para conseguir seu apoio na eleição municipal", afirmou o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ).

"Um prefeito que investe em um hospital de campanha municipal não pode ser o mesmo que promete abrir o comércio, pois as medidas são contraditórias", diz. "Na escolha entre o apoio do Bolsonaro para a sua reeleição e a vida do carioca, o prefeito ficou com apoio." Freixo anunciou, recentemente, que desistiu de concorrer à Prefeitura do Rio.

A coluna também conversou, em condição de anonimato, com uma pessoa que faz parte da base de apoio de Crivella na Câmara Municipal. Ele tem a mesma avaliação e lembrou que Bolsonaro havia indicado, em março, que não apoiaria nenhuma chapa na eleição do Rio, a menos que Freixo disputasse o segundo turno com o apoio do PT.

Live de Bolsonaro na noite desta quinta (21) - REPRODUÇÃO/FACEBOOK                             - REPRODUÇÃO/FACEBOOK
Live de Bolsonaro na noite desta quinta (21)
Imagem: REPRODUÇÃO/FACEBOOK

As "estatísticas" do presidente Bolsonaro

O presidente não tem sido muito feliz em seus "chutes". Por exemplo, no dia 12 de abril, durante uma reunião com líderes religiosos, afirmou que "parece que está começando a ir embora essa questão do vírus". Naquele momento, o país registrava apenas 99 mortes diárias, totalizando 1.223 óbitos.

O Ministério da Saúde divulgou, nesta quinta (21), que o país computou 1.188 novas mortes em 24 horas, um novo recorde diário, totalizando 20.047 óbitos por covid-19. Foram 18.508 novos casos confirmados, o que nos leva a 310.087.

Outra aposta do presidente é a eficácia da cloroquina para o tratamento da covid-19. Ele liberou o uso do medicamento para pacientes com sintomas leves no Sistema Único de Saúde (SUS). "Ainda não existe comprovação científica, mas [está] sendo monitorada e usada no Brasil e no mundo", postou nesta quarta (20).

Pesquisas publicadas em periódicos médicos, como o New England Journal of Medicine e o Journal of the American Medical Association, envolvendo milhares de pacientes, não encontraram redução na ocorrência de mortes de quem usou cloroquina, por exemplo. O maior estudo sobre cloroquina e hidroxicloroquina ate agora publicado, nesta sexta (22), no prestigioso periódico médico Lancet, afirma que pacientes que receberam os medicamentos tiveram um risco bem maior com relação aos que não receberam.

Nesta quinta, em live nas redes sociais, voltou a dizer que "mais importante que a vida, é a liberdade". A ideia entrou para a coleção de seus bordões, neste caso para criticar as medidas de isolamento social.

No último dia 7, durante reunião com representantes de associações empresariais e o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, para forçar a reabertura da economia, ele havia dito que "nós temos um bem muito maior que a própria vida que é a nossa liberdade".

Situação do Brasil não é comparável ao retrato atual da Europa

De acordo com o pesquisador Diego Xavier, considerando a atual fase da epidemia no Brasil, estamos 24 dias atrás da Espanha, 25 dias atrás da Itália e 32 dias atrás dos Estados Unidos. O processo de reabertura da economia nesses países acaba servindo de argumento para os defensores de que o mesmo seja feito imediatamente no Brasil.

A Alemanha, que é considerada um dos exemplos no enfrentamento da crise, com testagem em massa e planejamento central, autorizou o retorno do campeonato alemão de futebol após a estabilização dos casos. Em sua live nesta quinta, Bolsonaro defendeu o retorno dos jogos no Rio, com estádios sem torcida, e disse que conversou com o prefeito sobre o assunto. Afirmou que o Ministério da Saúde daria um parecer favorável, se necessário.

"Espero que o Marcello Crivella, que foi tenente do Exército por oito anos, resolva autorizar a volta do campeonato carioca. Espero que o mesmo aconteça nos demais estados", afirmou. O temor é que o retorno dos jogos passe a mensagem aos jovens de que eles também podem sair da quarentena para jogar bola.

Após registro de corpos em macas em um corredor do necrotério do Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, contêineres refrigerados são levados ao local para armazenar pacientes mortos na unidade em meio à pandemia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Após registro de corpos em macas em um corredor do necrotério do Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, contêineres refrigerados são levados ao local para armazenar pacientes mortos na unidade em meio à pandemia
Imagem: Arquivo pessoal

Sistema de saúde do Rio arca com casos da Baixada Fluminense

Os pesquisadores da Fiocruz ouvidos pela coluna afirmam que reabrir o Rio de Janeiro antes da hora adequada também significa um impacto nos municípios da Baixada Fluminense, em que há um aumento no número de casos e mortes, e dependem da estrutura de saúde da capital.

"O Rio faz parte de uma rede que atende vários municípios. Quem está no interior com um problema sério, manda para a capital. Não se achata uma curva em um município, mas sim em uma região, porque está tudo conectado", afirma o pesquisador Diego Xavier. "Estamos falando de proteger o sistema de saúde."

A adoção de quarentena, como vale sempre lembrar, é medida não para evitar a doença, mas retardar seu avanço a fim de evitar um colapso no atendimento em hospitais. Ou seja, prevenir de uma situação em que faltem médicos enfermeiros e leitos para todos os pacientes de covid-19, mas também de outras doenças e os acidentados.

Um dos principais questionamentos de governadores desde o início da pandemia de coronavírus é que falta liderança por parte do governo federal para o estabelecimento de diretrizes nacionais e regionais. Com isso, estados e municípios têm estabelecido suas políticas próprias, quando muito articuladas entre si, buscando resolver a questão de forma independente. O vírus, contudo, não se importa com limites político-administrativos.

Em São Paulo, prefeito do litoral reclama de feriadão na capital

Essa polêmica devido à falta de coordenação aconteceu em São Sebastião, estância balneária paulista. O prefeito Felipe Augusto (PSDB) chamou de "sacanagem" o megaferiado criado pelo município e pelo governo de São Paulo, que vai desta quarta (20) até a próxima segunda (25), com a antecipação de feriados.

"Um megaferiado em São Paulo... Vai ficar todo mundo fechado em casa em São Paulo? Vai dizer que vai ficar na janela olhando? Brincadeira, vão vir todos para cá", afirmou em uma live nas redes sociais.

A coluna conversou com uma médica que atua naquele município e pediu para não ser identificada. "O problema é que, depois, os visitantes vão embora, mas deixam caseiros, faxineiras, seguranças com covid-19. E quem arca com isso é a estrutura local."

Da mesma forma, pesquisadores apontam que, mesmo que o Rio estivesse em uma condição boa, o que, pelos números, não é caso, não faria sentido voltar às atividades sem articular isso com os municípios que dele dependem.

Sepultamento no cemitério São Francisco Xavier, no Caju, zona portuária do Rio de Janeiro  - WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO - WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO
Sepultamento no cemitério São Francisco Xavier, no Caju, zona portuária do Rio de Janeiro
Imagem: WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO

As entrelinhas dos números da saúde

O boletim epidemiológico da Secretaria Municipal de Saúde da Prefeitura do Rio, divulgado nesta quarta (20), traz dados coletados em unidades de saúde e afirma que "a redução no número de atendimentos a SG [Síndrome Gripal] e SRAG [Síndrome Respiratória Aguda Grave] nas 18ª e 19ª semanas persistiu na 20ª semana epidemiológica".

E que "dentro dos limites observacionais deste acompanhamento acreditamos que a redução na pressão de demanda sobre as portas de entrada da rede de urgência seja resultado de efeitos positivos das medidas de distanciamento social". Os dados já estão sendo usados por defensores do relaxamento da quarentena.

O pesquisador Diego Xavier afirma que esses números não podem ser observados isoladamente, que não podem ser analisados dados de apenas algumas unidades de saúde, nem desconsiderando outros indicadores. Para ele, uma redução no atendimento pode ter outras causas.

Um socorrista do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) afirmou à coluna que muitos pacientes estão evitando ir a um hospital ou a uma unidade de saúde com medo de contrair o coronavírus e "acabam morrendo em casa" pela doença, que já tinham sem saber. Sem os devidos cuidados, pode-se evoluir para um quadro grave em pouco tempo. Em outras palavras, com medo de pegar covid-19 estão morrendo de covid-19.

O sanitarista Christovam Barcellos afirma que há outros elementos que provocam queda de atendimentos. Um deles é a ocorrência de conflitos armados entre as polícias e traficantes em comunidades pobres do Rio. "São locais fragilizados e vulneráveis. A procura diminui por causa do terror", afirma.

De acordo com ele, quando se trata de uma população grande, como um país, a curva se aproxima de um gráfico exponencial com uma subida relativamente constante. Mas quando se olha para uma população menor, como um município, há "dentes", sobe-e-desce bruscos, oscilações. Por isso, deve-se olhar a tendência que, segundo ele, no Rio, é de subida.

O problema é que, não raro, olha-se para quedas pontuais e extrapola-se indevidamente. Um paralelo possível é o que acontece com o aquecimento global. Negacionistas usam temperaturas colhidas em anos com invernos mais rigorosos para afirmar que não existe aumento na temperatura do planeta, confundindo eventos do tempo e tendência de mudança no clima.

Barcellos cita oscilações no fluxo de notificação, mudanças no sistema de notificações que dificultam a inclusão de casos, a próprio omissão do Ministério da Saúde para a definição e protocolos de reconhecimento de casos de covid-19, a falta de testagem em grande escala, o sucateamento da vigilância de saúde para checar na base o que está acontecendo como entraves para que os agentes públicos tenham mais informações.

"Tomar decisões com base em dados frágeis, parciais e momentâneos e ignorar as tendências de aumento é muito perigoso", explica o responsável pelo observatório de covid-19 da Fiocruz.

Leonardo Sakamoto