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Leonardo Sakamoto

Batalha de Bolsonaro contra vacinação infantil encobre chuvas e inflação

8.dez.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, durante evento em Brasília - Mateus Bonomi/AGIF/Estadão Conteúdo
8.dez.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, durante evento em Brasília Imagem: Mateus Bonomi/AGIF/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

08/01/2022 12h19

Jair Bolsonaro (PL), seu governo e aliados engrossaram seus ataques à vacinação de crianças contra covid-19, usando mentiras e corpo mole, nesta semana. Isso tem servido para reduzir as atenções à falta de comprometimento do presidente diante da tragédias das chuvas na Bahia e para a incompetência perante o descontrole da inflação.

De um lado, o pacote de mentiras serviu para alimentar os seguidores negacionistas, que seguem dispostos a ir à guerra nas eleições pelo presidente. Para gerar indignação e, portanto, mídia gratuita, Bolsonaro chamou de "tarados" os que esperam ansiosamente por vacinar as crianças, atacou a Anvisa por liberar o imunizante para quem tem entre 5 e 11 anos e usou a própria filha para fins políticos, ao dizer que ela não será vacinada.

Por outro, a sabotagem da vacinação infantil perpetrada por ele, por seu ministro da Saúde e aliados, como a deputada federal Bia Kicis (PSL-DF), que chegou ao disparate de divulgar dados de médicos racionais para que sofressem assédio nas redes sociais, ajudaram a jogar cortinas de fumaça. Tanto sobre a falta de ações do governo federal perante às chuvas quanto diante do caos na economia.

Após ter ignorado a Bahia e ido tirar férias no litoral de Santa Catarina, divertindo-se com jet ski e carros de corrida, Bolsonaro armou um carnaval no hospital, aproveitando-se de uma obstrução intestinal causada por um camarão não mastigado. A saúde do presidente requer cuidados após a facada. Mas ele usou a própria vitimização para esconder do noticiário as 26 mortes, 520 feridos e 850 mil atingidos pela chuva no Sul da Bahia - números pelos quais estava sendo cobrado.

Segue assim um padrão, uma vez que a sua internação de julho de 2021 foi utilizada para distrair as denúncias contra seu governo trazidas pela CPI da Covid.

Além disso, o ano começa com perspectivas de crescimento zero ou bem próximo disso, baixa geração de postos de trabalho de qualidade e queda no rendimento médio dos brasileiros. O que afeta principalmente a população mais vulnerável, grupo que apoia majoritariamente o ex-presidente Lula segundo as pesquisas de intenção de voto.

Pó de café subiu mais de 112% em Vitória, segundo o Dieese

O Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) divulgou, nesta sexta (7), que o valor da cesta básica aumentou, em 2021, em todas as 17 capitais analisadas mensalmente pelo instituto. As altas mais expressivas foram em Curitiba (16,30%), Natal (15,42%), Recife (13,42%), Florianópolis (12,02%) e Campo Grande (11,26%).

Entre dezembro de 2020 e dezembro de 2021, o preço da carne bovina de primeira subiu 18,76% em Porto Alegre, o açúcar disparou 73,25% em Curitiba, óleo de soja aumentou 12,08% e o pó de café 112,44% em Vitória, o quilo do tomate escalou 102,29% em Natal.

Há uma parte da inflação que é culpa direta do governo, que fomenta a instabilidade política no país, contribuindo para o aumento do dólar. O dólar mais caro aumenta ainda mais o preço dos combustíveis, que já haviam subido no mercado internacional, fazendo com que a inflação cresça ainda mais por aqui.

Diante disso, os R$ 400 que ele está pagando como Auxílio Brasil a famílias pobres podem não fazer cócegas em seus índices de aprovação e em suas intenções de voto. Em dezembro de 2021, o maior custo da cesta básica foi o de São Paulo (R$ 690,51), depois o de Florianópolis (R$ 689,56) e, em seguida, o de Porto Alegre (R$ 682,90).

Também nesta sexta, Bolsonaro vetou a proposta que permite um novo parcelamento de dívidas de microempreendedores individuais e micro e pequenas empresas inscritas no Simples Nacional. Dessa forma, adotou um peso e duas medidas: para os pequenos, o rigor da obediência às leis. Para os grandes, as vantagens de quem tem força de lobby.

Entre as justificativas apresentadas, o fato de o projeto não ter apresentado previsão de compensação no orçamento de 2022, fazendo com que o governo desrespeite a Lei de Responsabilidade Fiscal. Mas seu governo não adotou a mesma justificativa quando sancionou a lei que prorrogou a desoneração da folha de pagamentos de 17 setores econômicos, entre eles, a indústria têxtil, de proteína animal, de construção civil, de comunicação, de transportes rodoviários, no dia 31 de dezembro de 2021.

Quase três anos se passaram e Jair continua com a tática da golden shower, adotada no carnaval de 2019, para mobilizar e distrair. Temos um presidente que não apenas brinca com a vida de crianças, que não tem políticas para o emprego, que usa a economia do país visando apenas à sua reeleição, que ajuda a causar fome. Também temos um presidente que nos enfia em um contínuo Dia da Marmota, em uma falta de criatividade terrível.